Crítica | Cinco dias sem Nora | Uma falecida ardilosa

Os mortos. Se existe um grupo sempre pronto a fornecer lições morais a roteiristas, esse é o predileto. Nos filmes, os mortos narram, interferem, deixam para trás intrincados problemas a serem resolvidos pelos vivos. Nora, a morta do longa da diretora e roteirista Mariana Chenillo, não deixa exatamente problemas ou profundos ensinamentos morais. A bem da verdade, quando se entope de comprimidos e passa desta para melhor, deixa é uma ceia, cuidadosamente planejada e explicada num caderno, antevendo uma improvável reunião entre o ex-marido, o único filho e o amante, por causa de sua morte. Nora, entre os mortos criados pelo cinema, é, com alguma vantagem, uma das mais ardilosas no ramo.

Entre o cumprimento de um rito religioso (Nora é judia e o Pessach, a páscoa judaica, se aproxima, o que torna urgente seu enterro), realizar o desejo da falecida ou livrar-se dela de uma vez, José (Fernando Luján), o ex-marido, trata logo de escolher a terceira, sem pestanejar. Descrente do que professa qualquer religião e ávido por resolver logo a questão, ele descobre aos poucos o que pretendia sua falecida ex-mulher: reunir a família em torno de sua memória. Alternando uma luta interna, a de quem não quer dar um último laivo de razão à ex-mulher, e outra, externa, a imposição de um rabino para que se cumpram os ritos, José trava uma batalha com o filho, com a tradição judaica e com o fantasma da falecida.

Cultora de um cinema de poucas lágrimas (e de muito pouco riso), Mariana Chenillo é hábil em não permitir que estas, mesmo escassas, corram antes do final de Cinco dias sem Nora. O recurso do diálogo útil – que não explica, ilustra – somado a nuanças de figurino e da direção de arte, produzem um longa-metragem sutil e de trato apurado, traído comercialmente pelo título canalha em português. No original chama-se Nora's will, ou o testamento de Nora, ou ainda  a vontade de Nora, muito mais adequado à história: Nora está presente, embora morta, e mandando muito mais que os vivos.