A certa altura de Marcha da vida, um dos entrevistados, um judeu sobrevivente dos campos de concentração nazistas, conta que, quando seu filho era pequeno e perguntava o que significavam aqueles números tatuados em seu braço esquerdo, ele respondia que era um telefone que não podia esquecer. O doloroso depoimento sintetiza sentimentos e objetivos do documentário da diretora americana Jessica Sanders, sobre a marcha anual que reúne vítimas do Holocausto e jovens judeus aos antigos centros de confinamento alemães: antes motivo de vergonha, a memória das barbáries cometidas durante a Segunda Guerra precisa ser transmitida às novas gerações.
Produzido pelas brasileiras Filmland e Conspiração Filmes, o documentário pretende registrar os significados de tais excursões, conhecidas como Marcha da Vida. Estas jornadas tiveram início em 1988, quando um grupo de jovens decidiu percorrer o caminho sem volta que era feito, a pé, pelos prisioneiros judeus dos campos de extermínio de Auschwitz a Birkenau, na Polônia, durante o conflito mundial. A marcha passou a se repetir todos os anos, atraindo cada vez mais adeptos, e hoje chega a receber 10 mil judeus por evento. O filme de Jessica acompanha judeus brasileiros, americanos, alemães e israelenses em 2008, quando comemorou-se os 20 anos da marcha e os 60 de criação do estado de Israel.
O filme de Jessica estrutura-se sobre a memória do terror (dos que viveram o pesadelo) e a emoção daqueles que confrontam-se com as evidências físicas dele. Apesar de reproduzirem experiências individuais, os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração falam de uma tragédia comum a eles, impossível de mensurar em termos quantitativos. Da mesma forma, a expectativa e a expressão de profundo pesar dos jovens judeus que ouvem as histórias das testemunhas, repetem-se ao longo da narrativa. Ambos podem conferir uma certa sensação de redundância que, no final das contas, sucumbe ao valor da preservação da memória de um capítulo vergonhoso da História, para que algo parecido possa ser evitado no futuro.