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Religião: Cruz: suplício ou esperança?

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A novidade da revelação cristã de Deus exige um ser humano novo, uma nova criatura. Sendo revelação de um mistério, só pode ser captada pela fé. Por isso, quando os Evangelhos apresentam Jesus, seus atos e palavras, eles o fazem de maneira misteriosa e velada.

Aqueles que no tempo de Jesus detinham o poder religioso e a interpretação oficial da verdadeira religião, declarando-a única e legítima, interpretaram Jesus como alguém que agia movido pelo espírito de Belzebu, e não pelo Espírito Santo. Consequentemente, por ser interpretado assim, Jesus devia morrer. Esse conflito o levou à condenação e à morte.

É aí que se levanta a grande questão que interpela a teologia e coloca a fé em cheque. O  acontecimento da condenação e morte de Jesus é que vai pôr o selo definitivo na questão sobre sua natureza divina e sobre a identidade do Deus da revelação. Jesus é preso, acusado, condenado, torturado e morto. E diante de sua morte, seus seguidores silenciam e se dispersam, deixando-o sozinho. Fracassado e abandonado, ele e seu projeto são expostos à execração pública, aparentemente fracassados e destruídos. E não somente as testemunhas se calam. Deus também. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que não suportou ver o povo sofrendo no Egito e no cativeiro da Babilônia, que mantinha com Jesus de Nazaré diálogo permanente e amoroso, de Pai para Filho, em profunda intimidade, retira-se e silencia diante da tragédia por que passa o Filho bem-amado.

A cruz de Jesus é o sinal de seu amor fiel à causa do reino de Deus. Não se pode  separar a morte de Jesus do resto de sua vida. O martírio de Jesus toma seu sentido pleno como  consequência dramática e  coerente de sua mensagem e de sua obra; a cruz é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai.

Porque Jesus revelou o Deus verdadeiro; questionou a decadência religiosa e as deformações do discurso oficial sobre Deus; fez dos pobres e  pecadores os preferidos de sua solicitude; combateu os ídolos de sua sociedade; questionou seus falsos valores, Jesus desatou o conflito que o levou à cruz. Portanto, para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida – são sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo. 

Frequentemente certa devoção cristã separou a cruz do resto da vida de Jesus. Isso fez com que a cruz fosse também dissociada da vida cristã em sua cotidianidade.  Na verdade, ela está sempre presente, já que seguir a Jesus é tornar-se interpelação e contradição no meio do mundo. 

Em seu aspecto sombrio e  negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto dure a história. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por isso é capaz, hoje como sempre, de trazer para a Igreja e sua missão duros fracassos.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo contém a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), expresso hoje em formas concretas: a corrida armamentista, a corrupção do amor, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o materialismo e todas as formas de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta colocando em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e morte de Jesus recordam-nos hoje que os inocentes e justos da terra, os fracos, os pobres e os desamparados continuam sendo crucificados. Pela  cruz, a paixão de Cristo é a paixão do mundo, e a paixão do mundo é a de Cristo.

Mas a paradoxo é que a cruz é  também sinal de esperança certa no reino, de sua eficácia e de sua vitória definitiva sobre todas as formas de pecado.

O paradoxo da cruz consiste em que o que em primeira instância parece um fracasso - a morte do Jesus e o fracasso da causa do reino - por causa do poder de Deus, que ressuscita Jesus dentre os mortos, transforma a cruz em fonte de nova vida e de libertação total, e constitui o começo da destruição do mal  em sua raiz.

 A cruz é o sinal da esperança cristã, porque nos ensina que na história, o mal, o egoísmo, a injustiça, não têm a última palavra. A última palavra na história é do bem, da fraternidade, da justiça e  da paz encarnados e testemunhados por Jesus e confirmados por Deus Pai na Ressurreição de Seu Filho.

Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o  espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond).