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Seis por meia dúzia

Novo governo militar egípcio é acusado de prisões e abuso sexual

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Assim como na Tunísia, o governo de transição pós-revolução do Egito não está dando conta do recado, enfrentando muitas críticas da população. Recentemente, um blogueiro foi preso por “insultar os militares”. Defensores dos direitos humanos afirmam que, nos últimos dois meses, milhares de pessoas já foram presas e julgadas por cortes militares. Militantes estão sendo torturados, e ativistas mulheres são violentadas sexulamente.

– O exército e o povo não estão de mãos dadas. A revolução conseguiu se livrar do ditador, mas a ditadura ainda existe – escreveu o blogueiro Michael Nabil, que foi preso e está enfrentando um julgamento secreto.

A opinião da população é generalizada. Muitos acham que, desde que os militares assumiram o controle direto depois que o ditador Hosni Mubarak foi forçado a sair do poder, suas ações refletem as táticas autoritárias do antigo governo ao invés de apontarem para  um futuro democrático.

Para externar essa revolta, milhares de pessoas se reuniram no último dia 1º, na Tahrir Square, na chamada Sexta-Feira do Aviso. E a população foi contida com violência. Durante a madrugada, soldados tentaram acabar com o tumulto, agredindo centenas de manifestantes. O ministro da Saúde informou que, na ocasião, uma pessoa foi morta. Além disso, as tropas militares prenderam muita gente.

– Não queremos um confronto com o exército, mas eles devem entender que o povo não ficará calado. Isso é uma revolução – critica o comerciante Nevine Bakir.

Os críticos afirmam que o governo militar é incapaz, ou não tem vontade, de assegurar uma verdadeira reforma democrática, o fim da corrupção e das práticas abusivas da polícia.

Apesar do choque da população, quem já serviu o exército não se diz surpreso com os recentes acontecimentos, já que os militares estão hoje exercendo tarefas muito além de sua capacidade e costume. Um porta-voz militar afirmou recentemente, em uma coletiva de imprensa, que muitas das acusações são falsas e que a corporação investigará as denúncias de abusos contra mulheres. E finalizou dizendo que os militares estão se dedicando ao máximo a mover o Egito, passo a passo, em direção à democracia. 

Entretanto, mesmo quem apoia a corporação pode dizer que existe um grande esforço para proteger as redes de contato de Mubarak e seus aliados. Para eles, os generais estão desconfortáveis com o novo papel e ainda estão aprendendo a lidar com os civis. 

– São pessoas muito inteligentes, mas não estavam preparadas para fazer isso. O exército recebeu essa missão de repente e foi ainda mais complicado por causa da ausência da polícia – diz Nabil Fouad, um general aposentado e professor de estudos estratégicos. 

O pequeno conselho militar não quer ser questionado e, por isso, o Supremo Conselho das Forças Armadas – que tem total autonomia nas decisões finais – não divulga os resultados de suas deliberações e decisões. Seus membros, treinados no antigo sistema dos privilégios, não apenas foram indicados por Mubarak, como trabalharam por anos ao seu lado. 

– Estamos falando de pessoas que serviram com o presidente por muito tempo, desenvolvendo uma relação pessoa. Não são políticos e agora estão tendo responsabilidades políticas – protesta Khalid Sorur, um general aposentado que serviu por 30 anos.

No topo do conselho, o líder supremo Field Marshal Mohamed Hussein Tantawi é um aliado de longa data de Mubarak. Ele tem um longo histórico banir a imprensa enquanto exerce considerável influência por trás dos panos em assuntos que vão muito além da defesa da nação.

Pela primeira vez, na Sexta-feira do Aviso, Tantawi se tornou pessoalmente o foco da ira da população, sendo chamado de ditador pela multidão. É ele, mais do qualquer outra pessoa, o responsável pelos acontecimentos no país. De acordo com documentos do governo e pessoas que já trabalharam com ele, Tantawi segue à risca os conselhos do ex-ditador.

Antes de sua visita aos Estados Unidos, em 2008, a embaixada americana no Cairo enviou um telegrama para Washington, descrevendo-o como “antigo e resistente a mudanças”, mas também “encantador e cortês”. O documento, obtido pelo WikiLeaks, dizia que Field Marshal Tantawi estava “afundado em um paradigma pós-ditadura e que servia aos interesses de seu bando há três décadas.