A faca continua afiada

Paulo José fala sobre a atualidade do espetáculo ‘Murro em ponta de faca’, de Augusto Boal, remontado mais de 30 anos depois da estreia, e de sua ligação com o universo circense, que ele retoma no filme ‘O palhaço’

Até que ponto cabe dançar conforme a música e bater continência ao regime em vigor? Esse questionamento, sempre atual, justifica a nova montagem de Murro em ponta de faca, texto de Augusto Boal escrito em 1971, ainda no auge da ditadura militar brasileira, e apresentado em 1978, com direção do mesmo  Paulo José que conduz esta nova versão.

– Até hoje militares tentam proibir a exibição de novelas – exemplifica Paulo José, referindo-se à polêmica em torno de Amor e revolução, folhetim de Tiago Santiago, no SBT, obra que motivou um abaixo-assinado de uma associação de militares pedindo sua retirada do ar.

Ainda que haja elementos atuais, o texto tem o grande mérito de trazer  à tona uma fase determinante da história política do país. 

– Não devemos ser revanchistas, mas é fundamental não esquecer o que aconteceu – destaca Paulo José, à frente da montagem que, apresentada em pré-estreia na última edição do Festival de Curitiba, toma conta do Espaço Sesc, em Copacabana, apenas até o dia 8 de maio. – Diante da perda da memória, ficamos frágeis.

O projeto de resgatar a peça partiu da atriz e produtora Nena Inoue, que promoveu um ciclo de leituras de textos centrados no contexto da ditadura.

– A leitura da peça sensibilizou o público – conta Paulo. – Nena me chamou, então, para dirigir uma encenação com atores paranaenses.

Além de Nena, estão em cena Erica Migon, integrante da Sutil Cia. de Teatro, de Felipe Hirsch, Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Sidy Correa, Abílio Ramos e Espedito Di Montebranco.

– Foi quase como fazer trabalho de grupo – assinala.

De grupo, Paulo José entende. Afinal, foi um dos principais integrantes do Teatro de Arena, companhia fundada, em São Paulo, por José Renato, que tinha como propostas principais o desenvolvimento da dramaturgia brasileira e uma maior proximidade entre público e cena. Do Arena também fizeram parte Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Riva Nimitz e Vera Gertel. Augusto Boal ingressou ao voltar dos Estados Unidos. Em Murro em ponta de faca, Paulo José chama a atenção para o fato de que Boal evita falar sobre a prática de tortura de maneira direta.

–  Ele só aborda de passagem – conta. – Boal era político, mas essa peça é bastante sentimental. Considero um corpo estranho em sua obra. 

Paulo José se refere às relações passionais entre os casais de personagens obrigados a viver na clandestinidade devido a uma tomada de posição contrária ao regime brasileiro da época. 

– Ele conta uma história de amor em tempos de cólera – declara Paulo José, citando o famoso livro de Gabriel García Marquez. – Uma história bonita, independentemente do aspecto político, dos fatos referentes aos anos de chumbo.

Em todo caso, um dos objetivos principais da encenação de Murro em ponta de faca, em 1978, foi chamar a atenção para o que acontecia no Brasil.

– A fase mais dura da ditadura estava viva na memória das pessoas – sublinha, lembrando o Ato Institucional nº 5, em 1968. – Várias pessoas tiveram parentes assassinados ou desaparecidos. Quando meu irmão foi encontrado no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nós nos sentimos aliviados porque podíamos visitá-lo.

Apesar de se tratar de um texto de Boal com direção de Paulo José, a primeira montagem de Murro em ponta de faca não buscava uma conexão direta com o Teatro de Arena.

– A escalação do elenco influencia na existência ou não desse tipo de ligação – explica. – Naquele espetáculo, estava em cena um grupo heterogêneo, formado por Renato Borghi, Othon Bastos, Martha Overbeck, Francisco Milani e Beth Caruso.

A cenografia e os figurinos ficaram a cargo de Gianni Ratto e o roteiro musical, de Chico Buarque.

– Ele assinava Julinho da Adelaide – lembra Paulo José, em relação a Chico, que teve duas de suas músicas, Meu caro amigo e Apesar de você, incluídas na nova encenação.

Murro em ponta de faca é mais um dos projetos de Paulo José, que anda em fase frenética. O ator marca presença, neste momento, no cinema – no filme (inédito) O palhaço, segundo longa-metragem de Selton Mello, com estreia prevista para agosto –  e na televisão – na novela Morde & assopra, de Walcyr Carrasco, em exibição na TV Globo, às 19h, no papel de Plínio, que, sem ter para onde ir, vai morar na casa do irmão, prefeito da cidade.

Através do longa, Paulo retoma contato com o universo circense. Ele e Selton interpretam personagens que conduzem o Circo Esperança, que palmilha o Brasil difundindo o entretenimento artesanal. Na verdade, o circo está presente em sua vida desde a infância, quando brincava com os irmãos no quintal de casa, em Lavras do Sul, e nas aulas de teatro no Colégio Salesiano, em Bagé, cidades vizinhas no Rio Grande do Sul. 

– Sempre fui ligado ao circo – confirma. – Formei uma dupla com Flavio Migliaccio.

Paulo José se refere à dupla Shazan & Xerife, que surgiu na novela O primeiro amor, de Walter Negrão, e ganhou um seriado, dado o sucesso: Shazan, Xerife & cia.

–  Fiz ainda, ao lado de Dina (Sfat), uma dupla circense na novela O homem que deve morrer, de Janete Clair – resgata Paulo, que também evoca o universo circense através de sua parceria com o Grupo Galpão, como diretor das montagens de O inspetor geral, de Nikolai Gogol, e Um homem é um homem, de Bertolt Brecht.