EUA: o golpe da barriga

Agentes encontram casa que abrigava mulheres chinesas em busca de passaporte americano para seus filhos

Depois de receberem denúncias de vizinhos que reclamavam do barulho e do constante entra e sai de mulheres grávidas, fiscais urbanos e policiais da Califórnia entraram no pequeno corredor de casas geminadas sabendo que havia alguma coisa errada. Na cozinha, viram uma fileira de berços de vime contendo diversos bebês, e uma mulher, agindo como uma enfermeira, que cuidava deles. 

Os sinais de uma maternidade improvisada eram evidentes. Pilhas de fotos mostrando mães com seus recém-nascidos estavam ao lado de diversas latas de leite em pó. As portas dos quartos tinham placas com números. Alguns eram bastante luxuosos – um deles tinha um grande closet, hidromassagem e frigobar.

Descobriu-se que a casa era o lar das chamadas “turistas de maternidade”: mulheres, neste caso chinesas, que haviam desembolsado dezenas de milhares de dólares para parir nos Estados Unidos, tornando seus bebês cidadãos americanos. A casa foi fechada e as dez mães e seus bebês  que ali moravam foram mandados para hotéis.

– Elas não viviam na imundície. O local era bem cuidado e limpo, mas havia muita gente – conta Clayton Anderson, fiscal municipal que interditou a casa. – Nunca vi nada assim. Nós realmente não podíamos imaginar o número exato de pessoas morando ali.

Em 2010, o debate sobre a cidadania como direito de nascimento varreu o país, com alguns líderes políticos pedindo o fim da 14ª Emenda – lei que confere cidadania automática a qualquer bebê nascido nos Estados Unidos.

Grande parte da discussão teve foco nos imigrantes ilegais, em sua maioria vindos de países pobres da América Latina. Neste caso, porém, as mulheres possuíam não só uma condição financeira estável, mas também vistos legais de turismo.

Especialistas em imigração afirmam ser impossível saber precisamente o grau de disseminação do “turismo da maternidade”. Empresas na China, México e Coreia do Sul inclusive já anunciam livremente pacotes que incluem médicos, seguro e atendimento pós-parto. O hotel Marmara, de donos turcos, em Nova York, já anunciou “estadias especiais” de um mês para esses casos – incluindo até mesmo carrinhos de bebês.

A descoberta de uma instalação dessa magnitude nos subúrbios de Los Angeles gera questões delicadas, uma indicação de que o turismo maternal estaria entrando numa nova fase, mais institucionalizada e com locais bem montados, operando silenciosamente em todo o país.

A pesquisa mais recente do Centro de Estatísticas de Saúde estima que tenham ocorrido 7.462 partos de estrangeiros nos EUA, em 2008. Especialistas dizem apenas imaginar por que chinesas bem de vida querem obter passaportes americanos para seus filhos, mas suspeitam ser um tipo de “apólice de seguro”, para caso precisem se mudar.

Angela Kelley, vice-presidente de diretrizes de imigração do Centro pelo Progresso Americano, diz que a existência de empresas ajudando mulheres estrangeiras a parir nos EUA é algo que começou a entrar na consciência pública.

– O fenômeno merece muito mais estudo e atenção. Mas falar em mudar a Constituição por causa disto me parece como matar um mosquito com uma bazuca – diz.

O Departamento de Estado, que concede os vistos, afirma não poder negar requerimentos simplesmente porque uma mulher está grávida.

– Elas não estão violando a lei. Esse fenômeno de vir aos EUA e depois ir embora com pessoas que possuem acesso ilimitado a um futuro regresso é simplesmente ridículo – critica Mark Krikorian, diretor do Centro de Estudos de Imigração, que defende um controle rígido sobre o tema. 

No ato da descoberta da maternidade em San Gabriel, Jennifer Davis, diretora de desenvolvimento comunitário da cidade, alertou funcionários da saúde pública, que não encontraram nada de errado com os bebês. Ela também alertou as autoridades de imigração. 

Virginia Kice, porta-voz da Agência Aduaneira e de Imigração, afirmou já havia investigado uma situação similar no sul da Califórnia, em 2010, sem encontrar evidências de quaisquer violações federais.