Da macumba à física quântica

Montagens de ‘Ay, Carmela!’ e ‘Solano e Rios’ evidenciam a importância conquistada pelo versátil dramaturgo espanhol no teatro carioca

O fato de dois textos do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra – Ay, Carmela! e Solano e Rios – estarem sendo encenados, neste momento, no Rio não deve ser tomado como simples coincidência. Não é de hoje que Sinisterra, nascido em Valência, em 1940, vem influenciando diretores e atores cariocas. Basta lembrarmos de  montagens  bastante elogiadas nos últimos anos, como Leitor por horas, dirigida por Christiane Jatahy, e Máquina de abraçar, estreia de Malu Galli na direção. Os encenadores das novas montagens – Marco Antônio Braz, à frente de Ay, Carmela!, que inicia temporada na Casa da Gávea, e Alexandre Mello, responsável pela condução de Solano e Rios, em cartaz no  Espaço Sesc, em Copacabana – tiveram contato direto com Sinisterra.

Braz o conheceu quando o dramaturgo veio a São Paulo assistir ao espetáculo no espaço dos Parlapatões, em 2007. 

– Estava nervoso, pois tinha cortado um pouco o texto. Mal falei com ele na entrada –  lembra Braz, que conduziu os atores Kiko Marques e Virginia Buckowski na encenação do texto traduzido por Fernando Peixoto. –  Durante a peça, não tirei os olhos de Sinisterra. Ele ria muito. Em dado momento, pensei que fossem risos de piedade. Ao final, agradeceu e foi bem elogioso. Participei depois do seminário dele para a sua direção paulistana de Flechas do anjo do esquecimento.

O caso de Alexandre Mello foi diferente. Ele trouxe Sinisterra ao Brasil para dirigir a montagem de Perdida nos Apalaches, em 1997.

– Na ocasião, ficamos todos muito próximos, parceiros mesmo – diz. – Ele já era um grande autor, conhecidíssimo na Espanha, e pouco entre nós. Perdida nos Apalaches era uma comédia divertida, com um humor bem característico do Sinisterra.

Antes, Mello tinha participado como ator de uma montagem de Solano e Rios, em 1992, ao lado de Christiane Jatahy, sob a condução do espanhol Moncho Rodriguez.

– Iniciei o processo do Ñaque de piolhos e atores (título original de Solano e Rios) com Christiane e outro ator, William Gavião, que não mora mais no Brasil, na função de assistente de direção – lembra Mello. –  Depois da peça montada, apareceu uma oportunidade de fazer uma turnê em Portugal. William não pôde ir; eu fui. Fizemos uma viagem maravilhosa. Era nossa primeira vez na Europa. 

Ay, Carmela! e Solano e Rios são textos que falam diretamente sobre atores. O primeiro, adaptado para o cinema por Carlos Saura e encenado no Brasil por Aderbal Freire-Filho (com Christiane Jatahy no elenco), conta a história de um casal de atores que, durante a Guerra Civil Espanhola,  é surpreendido tentando comprar linguiças e obrigado a montar uma peça exaltando os feitos das tropas fascistas. 

O segundo, que estreou em 1980 em montagem assinada por Sinisterra juntamente com o grupo Teatro Fronteiriço, fundado poucos anos antes, é centrado em Agostin Solano, faranduleiro de notável engenho, e Nicolau dos Rios, famoso representador, dois atores medievais paupérrimos e de nomes pomposos. Sinisterra, não por acaso, é um dramaturgo e diretor muito voltado para o trabalho do ator.

– Lendo suas peças, tinha a nítida sensação de que surgiam de jogos e improvisações dos atores – observa Braz. – O ator é a própria dramaturgia. Sinisterra leva ao paroxismo o poder da convenção teatral e, com isso, amplifica a necessidade de um ator capaz de defender um personagem que se perde no teatro e agora acredita estar em outra época (nos Apalaches, como em Perdida...). 

Na opinião de Braz, quem vê a simplicidade do resultado final tanto de seus textos quanto de suas direções não desconfia o quão elaborado e sofisticado é o seu processo. 

–  Brinco dizendo que, para Sinisterra, tudo interessa como sistema para o ator, da macumba à física quântica – acrescenta Braz.  

Alexandre Mello aborda a questão a partir de um viés histórico.

– Sinisterra nos leva a pensar que, desde que o mundo é mundo e as sociedades se organizaram, os atores estiveram à margem, justo para terem a liberdade de assumir uma  postura crítica – observa Mello, que dirigiu os atores Rogério Garcia e Leonardo Chaves. – Hoje, as estrelas não são mais os atores anônimos de outrora, que podiam criticar em nome da arte sem serem reconhecíveis e rotulados. Viviam a contradição de serem livres e, ao mesmo tempo, dependentes dos mecenas. Como diz Rios, num momento da peça: “Metade mendigos, metade putas...”. Desimportantes, mas fundamentais. 

O diretor considera Solano e Rios como obra atemporal.

– O texto pode e deve ser montado e remontado sempre porque trata do teatro e do fazer teatral de forma concreta, como condição de vida, de necessidade – sublinha Mello. – Fala da relação e da opinião do público e seu comportamento dentro do edifício teatral, das especificidades do trabalho ao vivo, dos medos e fantasias do ator com relação à interpretação. Ressalta a importância do papel do ator na sociedade de hoje e de sempre. Estas questões nunca vão sair de pauta. 

A atualidade de Sinisterra também pode ser percebida em sua defesa por um espectador ativo, capaz de se colocar como coautor do trabalho a que assiste e na disposição em adaptar textos de autores como Franz Kafka, Julio Cortazar, José Saramago e James Joyce. Inquieto, Sinisterra planeja agora partir para a obra do transgressor  Nelson Rodrigues.

– Ele já manifestou publicamente o desejo de traduzir ou coordenar a tradução da obra de Nelson para o espanhol – informa Marco Antonio Braz, diretor muito vinculado à dramaturgia de Nelson que, à frente da Velha Companhia, estreou Ay, Carmela! em São Paulo, em 2007. – Sei que ele quer dirigir Doroteia.

Malu Galli, por sua vez, admite que  Sinisterra foi o responsável por vários mergulhos em sua vida profissional. 

– Conheci Sinisterra através de Christiane Jatahy. O primeiro projeto que fizemos juntas foi Memorial do convento, de José Saramago. Ele assistiu à estreia, nos demos  bem – lembra. – Depois voltei a trabalhar com Jatahy em Conjugado. Apresentamos em Cadiz e ele foi assistir. Disse que deveria interpretar Molly Bloom. Desenvolvi o projeto de Diálogos com Molly Bloom e convidei-o para ser um dos diretores da montagem. Quando ele veio ao Rio novamente, perguntei se tinha uma peça com dois atores, e me apresentou Máquina de abraçar. Na hora,  em que li quis dirigi-la. 

Como se vê, a influência de Sinisterra em nosso teatro, ainda deve dar muitos (e bons) frutos.