James Cameron despiu-se de seu Avatar e entrou nas hostes dos grandes ativistas ambientais. Arnold Schwarzenegger surgiu como o exterminador do passado: quer um futuro limpo, na terra, no mar, no ar – onde o viajante dos céus Richard Branson voa com seu querosene verde; essa, a cor e o ideal dos Jogos de 2012 na Londres do projetista corretamente sustentável Dan Epstein. E Bill Clinton, um dos mais poderosos líderes políticos que o mundo já viu, curvou-se ao poder do Brasil e apelou à sua liderança. Sem scripts ou encenação, a turma ecológica deixou o recado: é impossível pensar em progresso sem consciência ambiental.
Clinton: Brasil pode liderar o mundo
À primeira vista, parece estranho um ex-presidente do país mais poluidor do mundo falar em progresso sustentável. Os Estados Unidos são um pote de controvérsias nesse assunto, mas Bill Clinton decidiu criar uma fundação internacional com seu nome para debater o meio ambiente. Não como autoblindagem, pelo contrário. Clinton dá a cara aos holofotes para mostrar ideias e soluções, e até criticar as políticas do próprio país no setor.
Clinton, em sua passagem pleo II Fórum, disse a que veio. Num discurso considerado o mais pragmático e incômodo, mostrou conhecer bem os gargalos sócio-ambientais do Brasil, indicou saídas e pediu união. Humildemente, desnudo daquele papel de líder que já desempenhou, soltou ainda que o Brasil pode liderar o novo mundo que está por vir: o que já luta, a cada dia, para sobreviver numa disputa de forças entre a indústria que demanda energia suja e a necessidade inevitável da sociedade em brecar esse conceito, buscando novas fontes.
Contra hidrelétricas
O ex-presidente aproveitou a oportunidade para comprar briga contra a construção de usinas hidrelétricas, que causam grande desmate nas florestas – só na Região Amazônica, o governo federal investe em três megausinas: Jirau, Santo Antônio e Belo Monte.
– Não tenho paciência para pessoas que criticam e não dão alternativas – atacou, para explicar em seguida: “Qual a alternativa? Vocês precisam de eletricidade e querem preservar a floresta. E 20% do oxigênio mundial vem de vocês. Não é fácil, mas vocês têm que pensar sobre essas coisas, sobre o futuro de seus filhos e netos. É preciso pensar na população indígena, nos animais, nas espécies de plantas que podem ter a cura para doenças”.
Para Clinton, a geração de energia ideal para o mundo hoje seria a renovável, com queima de lixo, experiência com bons resultados em muitas cidades do mundo.
– Se eu pudesse, fecharia os aterros sanitários do mundo, tiraria o material reciclável e queimaria o lixo para transformar em energia.
Energia eólica e etanol
Diante da liderança do Brasil atualmente no mercado de etanol gerado a partir da cana de açúcar, o tema seria inevitável no discurso de Clinton. Os Estados Unidos – que produzem seu etanol a partir de milho – há muito estão de olho na tecnologia brasileira a partir dos canaviais, que já renderam lucros e liderança no uso do álcool como combustível.
– Vocês produzem etanol de forma mais eficiente do que a gente. Espero que o acordo de biocombustíveis assinado com o presidente (Barack Obama) leve a uma redução da tarifa de importação de etanol de cana.
Há três anos, os então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush assinaram parceria sobre o biocombustível, mas não houve avanços – muito por conta do corporativista Congresso norte-americano. Clinton disse acreditar que o colega democrata Obama, desta vez, consiga destravar isso.
– Espero que agora vocês consigam levar sua produção para a América.
Desmatamento
A redução do desmatamento na floresta amazônica foi alvo de elogios do ex-presidente, embora ele tenha alertado, como outros convidados, para a manutenção desta meta e o trabalho constante de conscientização da população.
– Vocês não imaginam o quanto o resto do mundo depende do sucesso de vocês em conseguir aliar crescimento com sustentabilidade.
Branson: “O inimigo é o carbono”
O britânico Richard Branson, 60 anos, é conhecido no mundo todo por ter fundado a gravadora Virgin Records, seu carro-chefe para aquisição de outras companhias e a consolidação hoje do grupo com mais de 300 empresas, entre elas três companhias aéreas e uma que promete viagens espaciais para os próximos anos. Desde o fim da década de 80, ele começou a investir pesado no conceito de crescimento sustentável de suas empresas e tornou-se não só um fenômeno em todo o planeta sobre o tema como também concretizou isso em seus empreendimentos.
Despojado do vestuário, Richard Branson dispensou em Manaus o blazer que costuma usar, e foi sucinto em suas declarações mas direto ao ponto. Citou o ex-premier Wiston Churchill – ele sempre dizia que o mundo um dia venceria uma guerra. Para Branson, o inimigo hoje existe e é universal.
– O grande inimigo hoje é o carbono.
O empresário britânico leva a sério o trabalho de combate à emissão de carbono em todas as suas empresas, independentemente do ramo. Comanda um grupo de estudos que busca sempre a redução da emissão de CO2 em variadas áreas de atuação, com destaque para o setor de aviação. Para ele, o mundo seria muito melhor “se todas as empresas do mundo destinassem parte de seu lucro para projetos de sustentabilidade”.
Carro elétrico
A exemplo do ator e político austríaco-americano Arnold Schwarzenegger e do cineasta canadense James Cameron, que também passaram pelo Fórum de Manaus, Branson elogiou a capacidade de o Brasil liderar investimentos e mercado para o etanol, uma energia limpa. Estendeu o assunto para a fabricação de carros elétricos.
– Eu penso que em vários países há tecnologia em desenvolvimento para o carro elétrico. No Brasil, 70% da frota é movida a etanol, e o Brasil pode chegar a 100%. Para outros países, o carro elétrico pode ser a alternativa.
Voos para o Brasil
O empresário britânico revelou, durante o evento em um hotel de Manaus, que a sua companhia aérea Virgin Atlantic vai operar em breve para o Brasil.
Branson revelou que não pensa em abrir uma empresa aqui, um mercado em ascensão, mas que espera só a entrega de um Boeing 787 – que, fez questão de destacar, tem melhor custo-benefício ecológico – para a priori começar a operar voos para Manaus.
Como trabalha bem o conceito de sustentabilidade, o empresário destacou ainda que é a partir de suas três empresas aéreas que ele procura dar o exemplo para o mundo.
– Dentro de cinco anos nossos aviões vão voar com combustíveis mais limpos – disse Branson, durante a coletiva no II Fórum.
O exterminador do passado
Destacado no cenário internacional como um político ecologicamente correto por sua administração na Califórnia, nos Estados Unidos, o ex-governador e ator Arnold Schwarzenegger disse que o Brasil pode tornar-se líder mundial no debate sobre crescimento sustentável e elogiou a política contínua do país, de anos para cá, sobre energia renovável, com destaque para o etanol. Lembrou que o mundo precisa de novas energias, sem emissão de gás carbônico – que deve ser coisa do passado. Ele surgiu em Manaus a convite da organização do evento, mas também incentivado pelo amigo James Cameron, que o dirigiu nos blockbusters O exterminador do futuro 1 e 2. Ambos passearem pela floresta e conheceram nativos. Antes de ir embora, Schwarzenegger deixou sua colaboração para a economia local: comprou R$ 58 mil em joias para ele e a mulher.
Pelos discursos de Clinton e de Schwarzenegger, ficou evidente que o cineasta canadense James Cameron conseguiu convencê-los a entrar na luta contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu, Pará. Ambientalistas brasileiros e de todo o mundo – alguns deles presentes ao evento – denunciam que muitas aldeias de nativos e uma extensa biodiversidade vão sumir com o alagamento para a represa.
– Temos que trabalhar para criar uma fonte de energia, mas temos que saber como fazer, como trabalhar a água para isso. Temos que saber também como vamos deslocar pessoas para fazer represas, e temos que ver como fazer isso com pessoas, animais, e é muito importante sabermos fazer isso da forma correta – analisou Schwazernegger.
Mas o ator-político também teceu elogios ao país.
– E o Brasil tem um trabalho importante nesse sentido há algum tempo (preservação). Podemos aprender uns com os outros. Na área do meio ambiente temos que ser os mais inclusivos possível. O brasileiro fez um excelente trabalho sobre energia alternativa, que é o etanol a partir da cana de açúcar, é um exemplo que temos que seguir.
Schwazenegger aproveitou a coletiva, antes de discursar na quinta-feira à tarde, para lembrar avanços de seu governo na Califórnia.
– Tivemos sucesso no estado da Califórnia com trabalho de renováveis e com políticas governamentais com meio ambiente. Principalmente entre os anos de 2000 a 2010. E houve também avanços na energia eólica.
Passeio e futuro
Na quarta-feira, dia 23, logo depois de chegar a Manaus, Schwarzenegger e James Cameron visitaram comunidades indígenas de Manaus e passearam de barco pelo Rio Negro.
– Não poderia deixar de passar em Manaus sem conhecer isso. Para entender todas as questões relacionadas à floresta – comentou o ator.
Schwazenegger e Cameron são amigos há 25 anos, trabalharam juntos em dois filmes da série O exterminador do futuro (1 e 2) – o ator foi dirigido por Cameron, que alcançou ano passado o auge da carreira ao dirigir Avatar, o maior sucesso do cinema mundial até hoje. Justamente por ter abordado o conceito de meio ambiente e sustentabilidade no filme, Cameron tornou-se um dos atores principais do fórum desde a primeira edição, ano passado, também em Manaus. Desta vez, trouxe Schwazenegger para conhecer a cidade e a floresta.
Questionados se, num filme de ficção, tivessem que salvar a floresta e o mundo supostamente degradado pelo próprio homem, o ator brincou, ao dizer que “colocaria todos nós numa máquina do tempo e voltaria no tempo para conscientizar as pessoas” de todos esses problemas ambientais.
Gargalos sociais
Politicamente engajados no debate de sustentabilidade, Schwazenegger e Cameron afinaram o discurso sobre o tema. Para ambos, impossível hoje pensar um mundo em ascensão econômica sem correlacionar isso ao tema ecologia. Eles fazem questão de citar o Brasil no papel de líder mundial hoje – principalmente por sua forte economia – nesse debate, mas apontam ainda os gargalos sociais e justamente ambientais como problemas a serem sanados.
– É imediata a reflexão sobre o meio ambiente e o futuro. Lembro que o Brasil há anos tem uma política sobre isso – comentou Cameron. – Temos o desafio de encontrar solução para a energia renovável. O Brasil ainda tem grandes problemas sociais e ambientais, principalmente na floresta.
Epstein deixa lições para o Rio
Qualquer projetista urbano e arquiteto que visitasse a periferia de Londres e visse o que Dan Epstein encontrou, talvez pensasse, algum momento, em desistir. O trecho do Rio Tâmisa cheio de lodo e pneus abandonados por um gigante ferro velho vizinho, em área de igual degradação. Prédios sujos e depredados. Isso, na estilosa Londres, em pleno século 21. Dan Epstein não só aceitou o desafio de ali projetar grande área da cidade olímpica de 2012 como fez mais: tornou todo o projeto ecologicamente bonito. Parques foram criados com milhares de árvores, o rio foi dragado e ganhou deques, além de oito quilômetros de hidrovia; os prédios foram ao chão e dali brotaram ciclovias. O verde está presente em todos os cantos, e ele avisa: não quer carros no parque. “A cidade olímpica nem tem estacionamento”. Uma dica para o Rio de 2016.
O Rio de Janeiro precisa pensar o que quer ganhar com os Jogos Olímpicos de 2016. Esse foi o mote que o diretor de sustentabilidade e regeneração urbana dos Jogos de Londres 2012, Dan Epstein, deixou claro em sua palestra na quinta-feira à tarde, em um hotel de Manaus, no II Fórum Mundial de Sustentabilidade. Clareza, aliás, foi uma palavra-chave para Epstein. Para ele, os organizadores dos Jogos do Rio deveriam fundar um instituto para pensar a cidade com o evento, como lidar com isso e o que a capital pode herdar da experiência.
– Olhamos os outros exemplos, como legado, economia, administração. Em Atenas, por exemplo, houve empresários, ambientalistas e políticos. Tentamos transformar a cidade (Londres) num centro urbano sustentável. A cidade olímpica é do tamanho de Veneza, e teremos oito quilômetros de hidrovia no rio (Tamisa), numa área que estava degradada.
Epstein atua hoje como um projetista sócio-ambiental da futura cidade olímpica. Lembrou a área degradada da periferia de Londres que está em transformação – antes havia lixão a céu aberto, ferro velho imenso. E apresentou números: “Tivemos que demolir 240 prédios, e reciclamos a maior parte do material, limpamos o rio e criamos em novas construções”.
Trânsito
Se há uma preocupação do projetista sobre a organização dos Jogos do ano que vem é o trânsito de pessoas em Londres e na cidade olímpica. Ele destacou a implantação de um sistema modal de energia limpa e eficiente.
– Temos ônibus e trens com energia limpa. Não queremos que os visitantes usem carro em Londres. O parque olímpico nem tem estacionamento. Vamos criar ciclovias e queremos que isso continue para longo prazo
Embora não tenha citado explicitamente, a mensagem foi um recado claro para a organização do projeto olímpico do Rio 2016, que tem privilegiado desde já os BRTs – Bus Rapid Transit, em que a prefeitura reserva faixas seletivas para ônibus em toda a capital fluminense. O Rio, neste sentido, vai na contramão do projeto sustentável de Londres, que, ao usar trens, ciclovias e ônibus com energia limpa, inibe a emissão de CO2, tão em voga no debate mundial.
Epstein ainda expandiu seu conceito para as construções e concluiu:
– Quando você constrói, tem que pensar no carbono que está emitindo, pensar na energia renovável. Certamente, é importante construir prédios leves, com baixa emissão carbono.
“O Brasil está de quatro para o pré-sal”
O desmatamento é o retrato três por quatro da tragédia brasileira. A frase do ambientalista Fábio Feldmann, militante do Partido Verde de São Paulo e ex-candidato ao governo, foi um dos destaques de sua apresentação, sábado, no II Fórum Mundial de Sustentabilidade em Manaus. O ambientalista focou suas críticas a dois eventos econômicos em voga. A exploração mineral no sul da Bahia, com a construção de uma ferrovia em meio a uma Área de Preservação Ambiental, e a preocupação com os resultados ambientais da exploração do pré-sal na costa brasileira.
O projeto do estado da Bahia em parceria privada para a exploração de minério em mata atlântica no sul do estado, com construção de ferrovia e de um porto em área de preservação ambiental; e a incerteza sobre a expectativa em torno da exploração de petróleo na camada pré-sal, em alto mar.
– Não sou contra a exploração de minério, mas contra a forma de escoamento – esclareceu Feldmann, para informar em seguida que a ferrovia na Bahia custará R$ 6 bilhões ao contribuinte e com nenhum retorno sócio-ambiental, para exploração de reservas de apenas 20 anos.
A região, lembrou o verde, é uma das mais ricas em biodiversidade de mata atlântica no país – e ali há mais biodiversidade do que em todos os países europeus juntos. Feldmann conclamou os empresários a pensarem sobre o projeto e suas consequências, e ganhou apoio.
Para Fábio Feldman, o desmatamento é o retrato três por quatro da tragédia brasileira
Plebiscito
Sobre o pré-sal, o verde atacou o oba-oba político do governo em torno de seu verdadeiro potencial, e lançou mão de uma comparação de ideologias de desenvolvimento. Para ele, o país vive o confronto entre os que pensam como no século 20 – o crescimento a qualquer custo ambiental – e os que se conscientizam sobre o custo-benefício sócio-ambiental do século 21.
– O Brasil está “de quatro” para o pré-sal. E tenho muita dúvida sobre o pré-sal, de que o futuro esteja no combustível fóssil.
Para o ambientalista, “acreditamos que o pré-sal é a nossa salvação”, enquanto o mundo todo discute hoje energias alternativas – e provoca avanços correlacionados em todas as áreas da economia no que concerne a isso. Feldman defendeu a realização de um plebiscito com uma pergunta básica aos moradores de áreas onde haverá a exploração: “A população está disposta a assumir os riscos de um acidente?”.
Agronegócios
O ambientalista chegou a comparar, no contexto de sua apresentação, a Mata Atlântica com a floresta tropical amazônica.
– A Mata Atlântica talvez seja mais importante que a Amazônica do ponto de vista estratégico.
Feldmann não economizou críticas ao setor de agronegócios que desmata intensamente ainda no Brasil, embora tenha citado avanços de grandes empresas nacionais na conscientização em torno da venda de seus produtos, com exemplo para a carne de gado que só é encomendada de áreas não desmatadas. Alertou, no entanto, para o fato de que o agronegócio é o que mais vai sofrer mudanças em breve com o aquecimento global previsto. Certos tipos de lavoura, por exemplo, como o café, terão de migrar para regiões mais altas.
Formado em direito pela USP e em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas, Feldmann é militante ambientalista desde os anos 70 e já ocupou cargos políticos no setor em São Paulo. Ele foi um dos convidados pela Seminars para o Fórum de Manaus. Foi ideia dele o programa de rodízio de carros por final de placa que vigora até hoje na capital paulista.
Perfil – Um dos realizadores do evento em Manaus em parceria com Nizan Guanaes, pela Seminars, o empresário João Dória Jr. tornou-se um tipo raro nas fileiras do empresariado, um promoter social do PIB. Pelo seu Lide (grupo de líderes empresariais – um clube vip dos investidores no país), conquistou até agora a adesão de empreendedores brasileiros, além de estrangeiros de atuação no Brasil, que concentram nada menos que 46% do PIB nacional. Longe de ser apenas um grupinho da nata da sociedade, essa turma, motivada por Dória em seus seminários e eventos no Brasil e exterior, fomenta o debate em áreas de empreendedorismo, inovação tecnológica, educação e meio ambiente.
Colaborou João Batista de Araújo, de Brasília