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Tudo em família

Dono de uma filmografia pautada pelos dramas das relações entre pais e filhos, o diretor francês Claude Miller conta como foi voltar ao tema em ‘Feliz que minha mãe esteja viva’, coescrito e codirigido com o filho, Nathan

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Claude Miller passou grande parte de sua filmografia investigando a relação entre pais e filhos e os diversos níveis de manipulação psicológica e afetiva entre eles. Em Feliz que minha mãe esteja viva, em cartaz desde ontem nos cinemas da cidade, o realizador francês retoma uma variação do tema, centrada no sentimento gerado pelo abandono, mas desta vez levando consigo o filho Nathan, que coassina o roteiro e a direção do filme.  

Depois de servir como diretor assistente de vários títulos dirigidos pelo pai, pela primeira vez Nathan trabalhou lado a lado, de igual para igual, com o pai famoso, compartilhando ideias sobre a adaptação para o cinema de um caso real, ocorrido no final dos anos 90, envolvendo a trágica obsessão de um filho adotivo pela mãe biológica. Segundo a sabedoria popular, nenhuma família é perfeita, mas o diretor de 59 anos garante que a colaboração tão próxima em um tópico tão complicado não gerou qualquer tipo de constrangimento entre os dois.

– Houve um período, quando era mais novo, lá pelos meus 30 anos, em que eu era muito mais tímido e vivia focado no desejo de fazer os filmes que sonhava dirigir, que talvez não tivesse sido um pai perfeito. Mas fiz meus progressos – disse ao JB, com um grande sorriso no rosto, o diretor de Um segredo de família (2007), durante o Festival de Marrakech. – É bom lembrar que Nathan também se interessa por histórias sobre pais e filhos. Não é por acaso que ele trabalha comigo há dez anos. Este ano, ele vai dirigir seu primeiro longa-metragem. Na verdade, eu que o encorajei a abandonar a escola aos 16 anos e fazer cinema.

Ex-assistente de Robert Bresson (1901-1999), Jean-Luc Godard e François Truffaut (1932-1984), Miller reconhece a importância da experiência prática no aprendizado cinematográfico. A história da atividade, lembra ele, está cheia de bons exemplos de que, quanto mais íntima for a colaboração entre artistas, mais duradoura e proveitosa ela poderá ser.

– Reconheço que não há muitos pais e filhos trabalhando juntos em cinema, mas veja o caso dos irmãos  belgas (Jean-Pierre e Luc) Dardenne, de O silêncio de Lorna, os americanos (Joel e Ethan) Coen, de Bravura indômita, e os (Andy e Lana) Wachowski, de Matrix, entre tantos outros – observa Miller. – É claro que cada um tem uma função específica dentro dessas duplas, e sabe até onde um pode interferir no papel ou na decisão do outro. No nosso caso, posso dizer que Nathan teve sua área de atuação bem determinada dentro do processo de trabalho, assim como eu também tive. Num esquema parceria como este, temos que ser muito precisos sobre nossos limites para evitar maiores confusões. 

Em Feliz que minha mãe esteja viva, o destino de uma criança retorna ao centro do cinema de Miller. O diretor costuma dizer que se vê representado nos personagens miúdos que cria ou dos quais se apropria de outras fontes. Em A escola da carne , ele debruçou-se sobre um caso de pedofilia, drama vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 1999. Já no igualmente perturbador Betty Fisher e outras histórias (2001),  acompanhou os desdobramentos psicológicos e ilícitos da morte de um filho em uma jovem mãe. No ainda recente Um segredo, um adolescente judeu descobre um vergonhoso mistério sobre o passado dos pais.

– Meu interesse é compreender como uma criança, um jovem, enxerga o adulto. Para eles, é muito difícil entender o comportamento dos mais velhos. Crianças e jovens se sentem completamente indefesos diante deles – explica Miller, que nasceu em uma família judia. – Se  a infância é um livrinho mágico que a gente guarda no bolso pelo resto de nossas vidas, acho que ainda sou aquela criança que deixei para trás.

No novo filme, acompanhamos a doentia busca de Thomas, filho adotivo do casal Annie e Yves Jouvet (Christine Citti e Yves Verhoeven), por sua mãe biológica (Sophie Cattani), que o abandonou e ao irmão menor aos quatro anos de idade. O trauma gera um crescente sentimento de raiva no garoto, que o acompanha durante a adolescência até o início da vida adulta. Inspirada em caso que chegou ao noticiário policial francês, os Miller decidiram contá-la em flashbacks, alternando as diferentes fases da vida do jovem. 

– Percebemos muito cedo que todas as emoções dos personagens adultos só poderiam ser explicadas pelo passado deles. O filme tinha que ser como o tique-taque de um relógio, indo ao passado e voltando para o presente – justificou o diretor, que assumiu o projeto há cinco anos e que, originalmente, seria fetio por Jacques Audiard (O profeta, 2009). –  Ele chegou a escrever uma versão do roteiro com outro escritor mas, no meio do caminho, acabou se envolvendo com outro filme. O produtor nos ofereceu o texto, e nós o reescrevemos, o transformamos em algo nosso. 

Thomas é interpretado por Gabin Lefebvre e Maxime Renard, aos 4 e 12 anos, respectivamente. Em sua fase adulta, o jovem é vivido por Vincent Rottiers, talento encontrado fora das escolas de arte dramática há quase 10 anos e que está virando um queridinho entre os diretores da França.

– Vincent é um novo James Dean – elogia Miller. – É um talento nato. Vocês o verão em muitos filmes ainda.