O deputado estadual Paulo Melo (PMDB-RJ) já fez quase de tudo na vida. Filho de um ajudante de pedreiro e de uma parteira de Saquarema, o atual presidente da Assembleia Legistativa do Rio foi pedinte, vendedor de cocada nas ruas e até empregado doméstico. Em entrevista ao JB, Melo revelou que por pouco não realizou um assalto à mão armada, num momento de desespero, quando jovem.
– Nunca ganhei presentes, nem sequer carinho do meu pai – lembra o peemedebista. – Mas ele me deixou um senso de justiça muito forte.
Hoje, Paulo Melo preside sessões justamente no prédio ao lado do qual dormia, quando não tinha teto. Por isso, não esconde o orgulho.
O deputado chegou ao poder, em parte, graças a um acordo com o colega Domingos Brazão, também do PMDB. Ambos almejavam a presidência da Alerj, mas Brazão aceitou apoiar o correligionário. Em troca, Melo deveria abrir mão da reeleição ao fim do mandato, daqui a dois anos:
– Esse acordo já tinha acabado há muito tempo. Desde a eleição para a presidência que nós sabíamos que ele não existia mais. Garanto que vou disputar a reeleição da presidência daqui a dois anos.
Melo também negou atritos com Jorge Picciani, em torno da criação do comitê de combate à tortura no estado. Disseram que ele engavetara o projeto por ser contra.
– Fizeram uma tempestade em copo d’água em função de um projeto barrado por um erro técnico na sua redação.
Muito se fala sobre suas origens pobres. O que há de verdade nessas histórias? O senhor realmente chegou a ser morador de rua?
Sou um dos 14 filhos de um ajudante de pedreiro com uma parteira. Realmente, tive uma infância muito pobre em Saquarema. Quando jovem, vendia na rua doces que minha mãe fazia. Durante muito tempo, nossa família morou numa sala de um colégio municipal. Mais tarde, acabamos expulsos e construímos um barraco num terreno que invadimos. O material da casa foi comprado, em parte, com as esmolas que eu pedia.
E como o senhor veio parar no Rio de Janeiro?
Não lembro a idade ao certo, mas era adolescente quando vim para cá. Eu percebi que não teria futuro se continuasse naquela situação, em Saquarema. Vim de carona, sem conhecer ninguém. Obviamente, fui obrigado a viver nas ruas e cheguei a morar em abrigos para menores de rua. Eu tinha essa ideia, de que eu precisava trabalhar para chegar aonde queria, foi isso que me impulsionou. Vendi mariola e sorvete em trem, trabalhei de doméstico e dormi escondido num escritório até conseguir um emprego como entregador de anúncios, numa agência de publicidade.
Nos piores momentos que o senhor viveu no Rio de Janeiro, o mundo do crime chegou a passar pela sua cabeça?
Vivi durante um tempo numa cabeça-de-porco em São Cristóvão, com más companhias. Eu sempre fui contrário às drogas, desde novo. Mas, influenciado por eles, pensei em realizar um assalto. Estava com a arma escondida e prestes a começar a ação, mas lembrei do meu pai e desisti. Nunca recebi dele presentes e, sequer, carinho. Mas o senso de justiça dele era muito forte.
O senhor já tinha alcançado sucesso profissional antes de se tornar político. Como conseguiu sair da miséria?
Quando trabalhei em agências de publicidade, comecei a me estabelecer. Passei a trabalhar em duas, três ao mesmo tempo, e me estabeleci. Mas o começo foi difícil. Eu visitava a redação do JB para entregar os anúncios, e os repórteres me davam tickets refeição. Também devo muito à minha primeira mulher e mãe dos meus filhos, Sheila. Ela era de uma família da Zona Sul, mas largou tudo para ficar comigo e sempre me apoiou. Às vezes, dormíamos na rua, aqui na porta da Alerj.
E, depois de se estabelecer, como o senhor decidiu entrar na vida política?
Para explicar isso, tenho que falar de Sheila novamente. Ela faleceu grávida de um dos nossos filhos, após ter o corpo queimado num acidente. Aquilo tirou o meu chão. Sem saber o que fazer, eu preenchia o vazio ajudando em obras sociais que comecei a tocar. Nesses trabalhos, conheci gente do Partido Trabalhista Renovador (hoje, o PRTB) e me candidatei a deputado.
E o senhor acredita que a infância pobre e a adolescência nas ruas influenciaram seu estilo político?
Eu vi minha família ser despejada e ficar sem teto. Eu sei o que é sofrer, por isso sempre me importei com a questão do jovem carente, além de ter combatido grupos de extermínio na Baixada. Isso me deu sensibilidade, apesar da falta de reconhecimento. Se você é de direita no Brasil, automaticamente não pode falar de questões sociais, é muito preconceito.
Falando em trabalho social, o senhor tinha um centro social em Saquarema, que foi fechado em 2008. É verdade que ele foi fechado porque sua atual esposa perdeu as eleições no município?
Isso foi uma mentira usada para me prejudicar. O centro foi fechado antes da eleição, porque fomos processados injustamente após um problema judicial. Eu teria que ser muito pobre de espírito para encerrar um trabalho social em função de uma eleição. A confusão começou quando algum espertinho colocou um cartaz escrito “fechado por ingratidão” na porta do centro social. Hoje, já estou até cedendo aquele terreno, que é meu, para um trabalho do governo.
O senhor chegou à presidência da Alerj graças a um acordo com Domingos Brasão, mas já dá sinais de que não deve cumpri-lo. O que foi combinado entre vocês?
O acordo realmente aconteceu, com a ajuda do governador Sérgio Cabral. No entanto, isso acabou antes mesmo da eleição. Não tem nada disso. Eu serei novamente candidato à presidência da Alerj daqui a dois anos.
O senhor também entrou em atrito com o ex-presidente da Alerj, Jorge Picciani, por ter barrado a criação de cargos para o Comitê de Combate à Tortura. Por que o projeto foi parado?
Eu aprovo o projeto, mas ele tinha um problema técnico. Apesar de falarem que o projeto previa a contratação de fiscais que visitariam os presídios do estado, esse item não estava na lei. Tivemos que modificá-la, e eu fiz o trabalho de boy, colhendo assinaturas para a correção. Obviamente, aproveitaram o episódio para criar intriga, mas não foi nada disso.