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Liz aos olhos de uma adolescente

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O mundo está um pouco mais triste enquanto o Céu alegra-se ao receber Elizabeth Taylor. 

Meu coração, por um lado, entristece-se pelo fato de não tê-la mais entre nós e por outro, alegra-se por saber que não está mais a sofrer.

Posso dizer que a conheci quando ainda muito jovem e que sua beleza era tal que deslumbraram meus olhos de adolescente. 

Tinha realmente olhos cor de violetas (plural, mesmo, pois às vezes se tornavam mais escuros, outras, mais claros). A esse respeito, disse-me que pareciam mudar de tonalidade dependendo de seu estado de espírito: se alegre, o lilás adensava-se, se triste, mais suave era a tonalidade que tomavam.

A boca delicada e sensual, os lábios pareciam desenhados por algum dos maiores artistas do Renascimento (Raphael Sanzio, talvez?).

Quanto aos longos cabelos,  que lhe tocavam suavemente os ombros, eram negros, brilhantes como as asas da graúna, lindos, ondulados e emolduravam um rosto perfeito, com uma tonalidade quase que translúcida de porcelana de Sèvres. Esta foi a Elizabeth Taylor que conheci quando estudava na Califórnia, no início dos anos 60.

Abro um parêntese para relatar que a conheci de forma inusitada e há quase meio século. A diferença de idade entre nós não chegava a 12 anos. Ela, no entanto, era já atriz consagrada, e eu apenas uma estudante brasileira a cursar o último ano do secundário em Los Angeles, com bolsa de estudos do American Field Service. O diretor daquela organização – cujo objetivo era fazer a conexão entre os países estrangeiros dos quais provinham os estudantes, como eu e os estudantes americanos –  era Mr. Stephen Galatti. Para tanto, éramos todos convidados a dar palestras em escolas, clubes (Lions, Kiwanis, Rotary etc)  igrejas e associações diversas. Tendo aulas de oratória, e já falando inglês fluente, era uma atividade que me dava prazer, pois não só podia falar sobre o Brasil, como responder às perguntas todas feitas por meus colegas, professores e membros das associações acima referidas. 

Tornei-me membro-adjunto de uma família americana maravilhosa (que me tratava como filha) e tinha dois irmãos.

Meu pai da casa em Los Angeles era policial (morávamos em Inglewood) e algumas vezes recebia convites para visitações aos estúdios cinematográficos. Visitávamos sets de filmagens, conhecíamos atores, falávamos e, às vezes, almoçávamos juntos. Em uma dessas ocasiões, falava eu sobre o Brasil e Liz Taylor estava lá. Ela fez-me algumas perguntas e disse-me que gostaria de falar mais comigo. Pensei que ficaria nisso. Ao sair, no entanto, sua secretária pediu-me o telefone, mas jamais pensei que iria entrar em contato comigo. Todavia, dias depois, recebo um telefonema e era a tal secretária perguntando-me se eu gostaria de lanchar com a Liz. Óbvio: aceitei. O motorista veio buscar-me e levou-me à sua casa. 

Lá chegando, aguardei um pouco num lindo e verde jardim, enquanto via ao longe dois meninos brincarem, observados por uma babá com uma garotinha ao colo.  Quando Liz chegou, vestia calças  três quartos, (mais conhecidas como pescador), blusa xadrez amarrada na cintura e sapatilhas. Simples, linda e elegante. Pouca maquiagem e os cabelos soltos. Irradiava simpatia.

Eu, Mirna, estava frente à frente com a atriz mais famosa e linda do mundo! Só em sonhos poderia imaginar que tal poderia ocorrer. Sinceramente, devia ter demonstrado toda a emoção que sentia, pois parecia haver emudecido.

De início, ela fez com que me sentisse à vontade e perguntou muito sobre o Brasil, o povo, o cinema e...  sobre mim. Animei-me com suas indagações e não só  lhe respondia como  passei a perguntar  sobre ela. Por estranho que possa soar, em uma visita que durou aproximadamente uma hora, conversávamos como se nos conhecêssemos há anos... Entre  muffins  deliciosos, chá, sucos –  uma variedade de deliciosos petit fours, enfim – perguntei detalhes sobre make-up, e aprendi pequenos truques, (uso até hoje). E se for o caso, outro dia, conto.                                                                           

O tempo esgotou-se, pois ela tinha um compromisso. O motorista levou-me de volta à casa. Foi difícil pegar no sono aquela noite,  tal era a emoção.

Pois bem, outros convites semelhantes ocorreram mais duas ou três vezes, e me fizeram imensamente feliz. Liz  sempre  foi gentil e mesmo carinhosa comigo. Passei a querer-lhe bem. Foi algo natural.             

Notava, no entanto, sentia que seus olhos, às vezes, mostravam certa tristeza, enquanto os lábios esboçavam um sorriso – parecia que, enquanto me ouvia, algo passava por sua mente. Tentava distraí-la com mímicas, imitações nas quais meu talento histriônico se revelava, e parecia obter êxito. Como era bom vê-la sorrir! Sua beleza ficava ainda mais evidente, e a tristeza que eu havia captado, por momentos, parecia ter-se volatizado. Isso me fazia feliz: saber que minhas brincadeiras podiam não só desenhar um sorriso em seu rosto como, às vezes, até mesmo uma alta, sonora e límpida gargalhada!                          

Jamais ficava muito tempo na mesma posição na cadeira, pois se queixava  de desconforto nas costas e chamava sua secretária, que lhe trazia pílulas.

De qualquer forma, passamos horas agradáveis naqueles três, quatro dias (entenda-se três horas, no máximo, no total). Houve dias que chegávamos a conversar por uma hora – e, de cada conversa, saia eu enriquecida. Era boa, generosa e amiga.

Ao voltar para o Brasil, vi-a pouquíssimas vezes quando retornava aos EUA e ela lá estava. Outras, anos mais tarde, não mais a encontrei. Era para ter sido assim

O senhor tempo aos poucos ia apagando sua beleza física, mas o brilho de seus olhos revelava a intensidade do ser humano que era. Jamais deixou de ser bela, vez que a cada traço em seu rosto acrescentado, uma aura de bondosa luminosidade lhe era também acrescida.

Acompanhei sua carreira, sua vida, e posso afirmar não só pelo que li na mídia, mas pelo que falávamos: mesmo tendo sofrido muito desde pequena, Elizabeth também foi muito feliz. Amou e foi amada de forma que toda e qualquer mulher gostaria de sê-lo. Temperamental, intensa, sincera, amava a vida e tudo de bom que essa pode oferecer. Entregava-se a ela com avidez. 

Casou-se diversas vezes e casou-se duas vezes com Richard Burton que inquestionavelmente, foi o amor de sua vida.

Tinha alguns amigos – poucos, na verdade – e, entre eles, salientou-se nas duas últimas décadas, penso, Michael Jackson, a quem sempre apoiou de todas as formas possíveis, quando muitos de seus  supostos amigos, lhe viraram as costas. A morte de Michael  abalou-lhe mais a saúde já frágil,  enquanto mais fragilizada ainda o tempo a tornava.

Sua bondade era demonstrada de diversas formas, sendo a mais famosa os leilões que fazia de suas magníficas jóias para ajudar as pesquisas para a cura da aids, e mesmo os que sofrem dessa doença.

Tenho certeza de que será sempre lembrada por seus gestos nobres, provenientes da linda alma que foi ter com o Senhor de todos nós.