Escolas levam nota zero em matéria de combate ao preconceito. Ouvidas pelo Jornal do Brasil, professoras relatam que são mais vítimas de agressões do que seus colegas de trabalho homens. De acordo com a Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), cerca de 80% dos educadores da rede pública já sofreram algum tipo de agressão. A pesquisa também mostra que 96% dos registros referem-se a insultos verbais.
Na semana passada, a agressão de um aluno de uma escola pública do interior de São Paulo a uma professora de matemática chamou a atenção do país. No dia seguinte, os jornais no Rio contavam o caso da ex-diretora do Colégio da Providência, em Laranjeiras (Zona Sul), irmã Margarete, que receberá uma indenização de um grupo de pais de alunos que fizeram uma comunidade no orkut atacando-a.
Para Danilo Serafim, coordenador geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe) a incidência das agressões é maior nas mulheres porque a escola reproduz a lógica machista da sociedade.
– Além disso, os alunos repetem na escola a violência que acontece dentro de casa – acrescenta. – A banalização da educação chegou a tal ponto que o comportamento negativo que aparece na sociedade é repetido nas salas de aula.
A diretora de uma escola pública na Região dos Lagos fluminense, que preferiu não se identificar, conta que as agressões são frequentes, mas acontecem contra qualquer professor que exija disciplina dos alunos, independentemente do gênero.
– Já quase sentei em uma cadeira cheia de prego que os alunos colocaram – conta. – Uma vez, um aluno bateu na professora de história e eu o chamei à diretoria, mas ele se recusou. Quando saí da escola, meu carro estava todo arranhado. Outra vez, peguei um aluno pichando o muro da escola e disse que ele só poderia voltar com a autorização dos pais. Na hora da saída, ele jogou uma pedra de cinco quilos no carro de uma professora achando que era o meu.
O professor de filosofia Silvério Ortiz, 42, concorda que as mulheres são mais vítimas das agressões do que os homens. Para ele, o comportamento dos alunos é apenas um reflexo de como incomoda a ascensão feminina no mercado de trabalho.
– De certa forma, ainda aceitamos muito bem a subserviência da mulher. A nossa sociedade é direcionada para o homem branco heterossexual – analisa. – Existe aí uma relação de poder: qualquer personagem que não se encaixe nesse padrão e comece a ganhar seu espaço na sociedade acaba causando incômodo.
A professora de português do Ensino Médio Ana Paula Abreu, 44, conta que perdeu seu emprego num colégio particular por causa das agressões dos alunos.
– Vi um aluno cuspindo no meu copo d’água. Reuni a turma para conversar e chamei a atenção dele, que insistia em não ter feito nada – lembra. – No dia seguinte, os pais estavam na diretoria pedindo a minha demissão. Uma semana depois, fui demitida. Quando a escola não acolhe as reclamações dos próprios professores, ficamos à mercê da vontade dos alunos.
Maria do Céu Carvalho, diretora do Sindicato dos Professores do Rio (Sinpro-Rio), explica que as agressões, em geral, acontecem de forma diferente nas redes públicas e privadas.
– No colégio particular, o aluno vê o professor como alguém só recebe seu salário porque o aluno paga – constata. – Ele pensa: eu pago mensalidade, você trabalha para mim, então deve fazer o que eu quero.
Ex-professora de um colégio particular em Niterói, Glaucia Motta, 55, acredita que o grande problema é a falta de limites.
– Onde eu trabalhava, as agressões eram frequentes, porque a escola aceitava aqueles alunos que já tinham sido expulsos de todas as outras – lembra. – Uma vez um aluno me mandou uma mensagem pelo celular me ameaçando de morte, levei à diretora, mas nada foi feito. Eles atacam as mulheres porque a força bruta dos homens os desencoraja.
Menores salários
Maria do Céu afirma que o preconceito não vem só dos alunos. Ela lembra que o ensino fundamental, que paga os menores salários, tem muito mais profissionais mulheres do que homens.
– Mesmo assim, percebemos que elas costumam ter muito mais escolaridade do que eles, mas isso ainda não é o suficiente para que a professora seja vista como profissional qualificado – critica. – Quando chega no ensino médio, a presença das mulheres é maior nos segmentos menos importantes, aí o aluno adquire mais respeito pela figura masculina.
Maria do Céu acrescenta que a sociedade, em que as mães ocupam cada vez mais uma grande fatia do mercado de trabalho, deve combater esse comportamento.
– Temos que lutar por uma educação não sexista – protesta.
A antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro Yvone Maggie explica que por haver mais professoras mulheres do que homens, temos a impressão de que as agressões acontecem mais a elas.
– O que eu percebo são professoras extremamente dedicadas, que ficam solitárias diante da enorme tarefa de acreditar que uma boa escola pode transformar a vida dos alunos – lamenta.