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Os reis da arquibancada

Torcedores fanáticos de escolas de samba superam dificuldades e distância para acompanhar apuração

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A organização, as faixas e a paixão lembram as torcidas organizadas de clubes de futebol. No entanto, nas arquibancadas do Sambódromo, não tem briga. Misturados, mesmo com a tensão da apuração do desfile das escolas de samba, os torcedores das principais agremiações cariocas deram ontem um show de alegria que nem os jatos d’água dos bombeiros conseguiam esfriar. 

Entre eles, havia até quem estivesse ali só pelo clima da diversão, sem se importar com as chances de ver a sua escola campeã do Carnaval. 

– Nasci e cresci no Borel, vi a Unidos da Tijuca ser quase um bloco de rua até virar a estrela que é hoje – conta o aposentado Valtemino dos Santos, de 68 anos. – Se vencer ou perder, eu não ligo. O importante, acima de tudo, é me divertir e participar. E é para isso que estou aqui hoje. Eu torço, mas com o coração bastante tranquilo. 

A paixão pelas agremiações também não tem fronteira. Passeando pelas arquibancadas, era fácil identificar pelo sotaque torcedores de todos os cantos do país. 

– Eu não sei explicar como começou a minha paixão pela Beija-Flor – explica o comerciante Adílson Beber,  38, que todos os anos deixa sua loja em Jaú, no interior de São Paulo, para desfilar na Sapucaí. – Ninguém na minha família liga muito para Carnaval. Mesmo assim, desde pequeno, eu já torcia pela Beija-Flor assistindo à televisão. 

Nas  páginas seguintes, você vai conhecer alguns desstes personagens que fazem a festa nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí até mesmo em plena Quarta-Feira de Cinzas.

Beija-Flor de Jaú, Adílson desfila desde 1982

Paulista no samba nunca foi muito bem visto pelos cariocas. No entanto,  o jauense Adílson Beber, 38 anos, parece não ligar muito para o preconceito. Torcedor da Beija-Flor desde criança, ele sempre reserva o mês de fevereiro para tirar suas férias e vir  ao Rio de Janeiro para desfilar na escola de samba de Nilópolis.  

– Comecei a vir em 1982, com um amigo. De lá para cá, perdi poucos desfiles da Beija-Flor. No total, são 15 anos de viagens e quase sempre desfilando – conta o comerciante. – A família sempre apoiou. Quem não gostava era minha ex-mulher, mas disso eu prefiro nem falar. Já deu muita briga (risos).

Acostumado aos títulos da escola, Adílson deu sorte e viu a Beija-Flor ser campeã em 2011. No entanto, mesmo antes do resultado, ele já se dizia satisfeito com a escola.

– Quem é Beija-Flor de verdade sabe que o desfile deste ano foi emocionante, mais até do que os dos anos em que fomos campeões – lembra Adílson. – Só isso já valeu a pena.

Com ou sem título, Almir não larga a São Clemente

Com quase 40 anos de desfiles no currículo, o aposentado Almir Martins não é do tipo que se importa com títulos. Nascido no Amazonas, ele veio para o Rio de Janeiro ainda adolescente, cresceu no Morro Dona Marta e adotou a São Clemente como  escola de samba. 

– Quando jovem, eu participava das folias em Botafogo e acabei me enturmando com o pessoal da São Clemente – lembra Almir, que tem 70 anos. – A escola nunca ganhou um título, mas acho que isso não importa. Vou para a Sapucaí para me divertir e sempre venho para a apuração, mesmo sabendo que não vamos ganhar. 

Percussionista da escola de Botafogo há décadas, Almir se orgulha de ter sido chamado para participar da bateria de outras agremiações. Ele chegou a desfilar pela Estácio de Sá e pela Flor da Mina, ambas fora do Grupo Especial. 

– Mas o coração sempre se manteve na São Clemente – garante Almir, que ficou fora do desfile neste ano. – A idade chegou, e o médico proibiu. Fiquei só na televisão.

Tijucano do Borel é a história viva da escola

Do alto dos seus 68 anos, o tijucano Valtemino dos Santos se mostra quase indiferente em relação ao status que a Unidos da Tijuca alcançou no Carnaval carioca. Nascido no Morro do Borel, ele acompanha a escola desde os seus tempos mais modestos a acredita que o título fica em segundo lugar. 

– Eu acredito que todo mundo tem a sua hora. A nossa demorou, mas chegou no ano passado. Agora a escola não é mais só uma coadjuvante. Mesmo assim, o mais importante é participar da festa, e não isso de ser campeão. Isso é besteira – garante o aposentado, que tem orgulho das suas origens. – Alguns dos membros fundadores da escola são da minha família. 

Com uma toalha úmida na cabeça para enfrentar o calor, Valtemino parecia alheio ao clima de disputa que tomava conta de alguns torcedores.

– Eu nasci e cresci no Borel, nunca morei em outro lugar – lembra o aposentado. – Venho aqui para acompanhar o Borel. Não importa a escola campeã. No coração, quem sempre vence é a Tijuca.

Carnavalesca de Petrópolis torce para todas no Rio

Entre torcedores fanáticos e foliões de ressaca, havia quem estivesse ali exclusivamente para celebrar o Carnaval. Presidente da Unidos da Independência, escola de samba de Petrópolis, Sílvia Bello veio ao Rio de Janeiro para torcer pelas mais belas. 

– O coração pende um pouco para o lado da Mangueira, mas a gente veio aqui comemorar qualquer nota dez – conta a empresária, que veio acompanhada de seu marido e de passistas da Unidos da Independência. – Sei como é difícil organizar um desfile. Claro que, em Petrópolis, não é nada tão grandioso. Mas tenho ideia das dificuldades, por isso reconheço o trabalho das campeãs. 

Ainda abalada com as chuvas que devastaram a cidade no começo de janeiro, ela confessa que entrou em depressão quando soube do cancelamento do desfile das escolas de samba do município. 

– Ainda tínhamos esperança de desfilar, já que o centro histórico da cidade ficou intacto. Infelizmente, não deu – lamenta. – Eu fechei minha loja para dar total atenção à Unidos da Independência. Não desfilar foi um baque horrível, muito grande para mim.

Ari madruga para torcer pela sua Mocidade

Ontem, se você viu uma moto disparando de Padre Miguel para o Centro, provavelmente era pilotada por Ari Jorge Seixas. Membro de uma torcida organizada da Mocidade Independente, o administrador madrugou  só para poder acompanhar a apuração das notas. 

– Hoje, eu tinha que trabalhar ao meio-dia, mas cheguei às 6h da manhã para adiantar tudo e vim voando com a minha moto para cá – revela Ari Jorge. – E, para mim, não tem essa de desfilar só pela alegria não. Quero o título. Vencer o Carnaval coroa o trabalho da escola. 

Para o torcedor da Mocidade, sua cobrança tem razão. Ari Jorge está sempre na quadra da agremiação, tanto nas festas quanto nas disputas para escolha do samba enredo. O hábito, inclusive, gerou atritos com sua esposa, mas ele deu um jeitinho de inserir sua família no cotidiano da escola. 

– Minha mulher sempre reclamou, então coloquei minha filha como passista da Mocidade para poder ir a todos os ensaios e não ouvir reclamação – lembra o administrador, com um sorriso no rosto. – Agora não tem jeito, tenho sempre que acompanhá-la na quadra. Esse ano, ela desfilou até em carro alegórico.

Gaúcho da Mangueira  vem ao Rio todos os anos 

Escola de samba mais querida do Brasil, a Mangueira é a razão pela qual o funcionário público Alberto André Borges, de 54 anos, troca Porto Alegre pelo Rio de Janeiro todos os anos. Presente na inauguração do Sambódromo, em 1984, ele não perde um desfile desde então. 

– Eu já gostava de Carnaval naquela época, mas via tudo pela televisão – recorda Alberto. – Quando vim aqui pessoalmente, em 1984, me apaixonei pela Mangueira. Naquele ano, ela foi a última a se apresentar e desfilou duas vezes, de tão grande que foi a empolgação dos componentes e do público.

Apaixonado após testemunhar um dos desfiles mais marcantes da história da Sapucaí, ele recebe o apoio da família e dos amigos para desfilar pela Mangueira. Neste ano, ele conseguiu uma vitória que facilitou suas aventuras no Rio.

– Antes, eu ficava em hotéis e gastava um dinheiro. Mas um sobrinho meu veio morar no Rio e fico na casa dele – conta. – Ficou difícil perder um desfile da Verde e Rosa.