Tem ideia de quantos foliões acompanharam o Bloco do Cordão do Boitatá em seu primeiro desfile? Pois saiba que foram (singelos) 15. Ou seja, mais ou menos 0,03% da multidão que a banda deve reunir neste domingo durante o seu 15º cortejo na Praça 15, no Centro, a partir das 8h. Hoje, até a quantidade de músicos é maior do que o grupo do Carnaval de 1997: são 50, 30 no sopro e 20 na percussão, que se apresentam sem carro de som. Conversamos com o percussionista Ricardo Cotrim sobre a bem-sucedida trajetória do bloco que se tornou um dos mais populares da folia carioca.
Quem gosta de Carnaval já sabe: domingo é dia de acordar cedinho para seguir o cortejo do Boitatá que, além de Cotrim, é formado por Kiko Horta (acordeom e piano), Cris Cotrim (voz e cavaquinho), Luiz Flávio Alcofra (violão), Thiago Queiroz (sax barítono e alto), Pedro Pamplona (sax tenor, sax soprano e flauta) e Paulino Dias (percussão). O grupo é apontado como um dos responsáveis pela revitalização do Carnaval de rua da cidade, mas Cotrim nega que a folia estivesse decadente no primeiro desfile. Ainda assim, o surgimento e crescimento do bloco deu novo fôlego ao Tríduo de Momo no Rio.
– Os grandes blocos estavam lá: Suvaco de Cristo, Simpatia É Quase Amor, Cordão da Bola Preta... O que fizemos foi incentivar o uso de fantasias, o que acabou voltando muito forte. Naquela época, as camisetas específicas de cada bloco era o traje o que o pessoal mais usava.
Do primeiro e informal desfile pelas ruas do Centro até o megaevento organizado hoje, recebendo, segundo as estimativas, mais de 50 mil pessoas, não houve muito planejamento ou divulgação entre os foliões. O crescimento se deu aos pouquinhos, no boca a boca e de maneira espontânea, do mesmo jeito que a personalidade do carioca. Nesta edição, vai ter inclusive um casamento, com mais de 100 convidados.
– Crescemos de forma geométrica. Começou com 15 pessoas, no segundo ano tinham 100, depois 300, mil... – lembra Cotrim. – Depois, resolvemos ampliar a ideia e criamos o bailão, na praça.
O tal bailão é um grande show que o grupo apresenta na Praça 15, depois do desfile, das 12h às 16h, com som amplificado.
Vale ficar de olho no time de convidados deste ano: Cristina, Rubinho Jacobina, Mariana Baltar, Pedro Miranda, Marceu Vieira e Tuninho Galante, Nilze Carvalho, Rio Maracatu, além de Tia Maria do Jongo da Serrinha que neste Carnaval ganha uma homenagem especial no palco, pelos seus 90 anos. Todos, vale frisar, se apresentam sem cachê.
– Nós recebemos um apoio para estruturar o palco, o som e o Ecad. O resto da turma toda se apresenta no esquema “0800”, o que contribui para o sucesso do evento – frisa o percussionista.
A relação com o Ecad, problemática para muitos blocos, é tranquila para o pessoal do Boitatá.
– É divulgado que existem duas opções: pagar cerca de R$ 4 por pessoa ou 10% do custo do evento. Nós pagamos R$ 1.500, que não é nem uma coisa nem outra – explica.
No resto do ano a animação continua: o Boitatá é, em primeiro lugar, uma banda ligada a festas populares, com apresentações o ano todo.
– Fazemos sempre um evento de São João e um auto de Natal com o grupo Pedras – explica Cotrim. – Agora, acabamos de voltar de Quito (Equador), onde fizemos show a convite do Itamaraty, num evento carnavalesco de lá, é tem algo da tradição do Carnaval de máscaras.
O desfile do Cordão do Boitatá, que começa cedinho para que as crianças também possam participar sem muito tumulto, tem sua tradição, como lembra a publicitária Rebecca Ratto, que todo ano aguarda com ansiedade pelo cortejo do bloco.
– O auge é quando eles vão até o Palácio Tiradentes e aquela multidão colorida ocupa todos os degraus da escada e grande parte da 1º de Março cantando marchinhas e fazendo festa. É simplesmente lindo – opina.
Se animou? Então, seja criativo e separe uma fantasia para o desfile deste ano, que homenageia Paulo Moura (eles tocam Ao velho Pedro, de autoria do compositor, morto ano passado). Sem um adereço, você vai se sentir meio descolado. Ao longo desses 15 carnavais do Boitatá, Cotrim conta a fantasia que mais o marcou.
– Era um cara fantasiado do moita – lembra. – Ele usou plantas de verdade retiradas das ruas da cidade. Em certos momentos, ele ficava parado e parecia um arbusto real. Incrível!