Mestre Messias (1942 – 2011)

No fim da tarde de sábado, 26 de fevereiro, Messias dos Santos bebeu sua última cerveja no Bar do Gomez, em Santa Teresa, bairro onde morava e se tornou espécie de personagem folclórico. Mestre Messias, como era conhecido, costumava ali ser constantemente fotografado por turistas curiosos com a elegância extravagante de seu chapéu por ele mesmo pintado. Poderia ter sido mais uma tarde de sábado em que teria falado de suas canções, seus quadros, do CD gravado com a participação carinhosa de tantos músicos que o admiravam. Mas, poucas horas depois, o Mestre morria na companhia do amigo que, nos últimos anos, o acolhera com um lugar para morar.

Natural de Cataguazes, em Minas Gerais, vivia dizendo que voltaria para lá. Pensando nessa possibilidade pintou o quadro Pedacim de trem, que retrata a estação ferroviária da terra natal e no qual resplandece um amarelo carregado de muita vida. Nunca conseguia dinheiro para realizar o retorno a Cataguazes. Contava sempre com os amigos que gostavam de sua música e sua pintura, e com eles trocava ideias pelas esquinas do bairro que amava. Foi assim, por exemplo, que a Casa Áurea tornou-se ponto de referência para apreciadores de seus quadros. Assim também fez parte da recente exposição do fotógrafo Ricardo Beliel, que clicou perfis de pessoas características de Santa Teresa. E assim foi filmado por Cecília Lang no documentário Messias dos Santos, delicadamente nobre.

André Cunha, Pedro Lima e Cristina Bhering são apenas alguns dos muitos músicos que sempre o acompanharam em canjas dadas em bares como Simplesmente e Marcô. Acalentava a esperança de ver lançado seu primeiro CD, produzido pelo alemão Michael Sexauer, que traz canções feitas nos anos 60, no período em que viveu em Juiz de Fora, e outras dos anos 2000, como o saboroso samba Negro carioca. Caberá a Michael lançar postumamente esse tributo ao Mestre que reúne, entre outros, Tomás e Gabriel Improta, Robertinho Silva, e até um coro de crianças que remete ao antológico Minas, de Milton Nascimento.

Ao saberem de sua morte, amigos emocionaram-se num brinde ao Mestre, na esquina do Bar do Gomez, e lembraram sua obra-prima, Jongo diminuto e uma canção que diz assim: “…pra te encontrar na madrugada/ e te guardar dentro das cores”. Marcos Nogueira, o Marquinhos das marionetes, reconhecido pelos maravilhosos bonecos que faz de Cartola, Tim Maia, Raul Seixas e Gilberto Gil, entre outros, se lembra da época em que morou com Messias, em dias de completa pindaíba. “Certa vez ele vendeu um quadro. Chegou em casa e falou: ‘agora é nós’! E fomos jantar fora e beber pelos restaurantes de Santa Teresa durante alguns dias, até o dinheiro do quadro acabar”.

Messias dos Santos era assim.  Ao partir para a Eternidade, aos 68 anos, dele ficam um chapéu, um sorriso e uma herança de cores, acordes e versos. Valeu, Messias! Agora é nós!

Veja Messias tocando o Jongo diminuto. E leia o verbete Messias dos Santos no 'Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira'. andreluiscamara.wordpress.com