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Está no sangue

O novo livro do assassino mais carismático da ficção chega às prateleiras brasileiras, e seu criador, o americano Jeff Lindsay, falou ao Jornal do Brasil sobre as novas emoções na vida de Dexter, sua visão sobre os exageros da arte contemporânea,

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Parecia uma tarefa improvável: como criar um serial killer e fazer os leitores estabelecerem uma relação de empatia com o personagem? O irreverente americano Jeff Lindsay cumpriu o desafio com perfeição. Dexter, o técnico forense especialista em amostras de sangue,  assassino que mata exclusivamente  assassinos que conseguem escapar da justiça,  é hoje reconhecido mundialmente a partir da série de TV inspirada na obra do escritor, que completou sua quinta temporada. Aqui, enquanto o programa é exibido nos canais FX (reprise da quarta temporada) e Liv (primeira temporada), as  livrarias acabam de receber o quarto livro da série, Dexter – Design de um assassino, e o simpático autor conversou com o Jornal do Brasil sobre a nova trama. Dexter é agora um homem casado, que vai passar a lua de mel em Paris. Na volta, tem que lidar com uma série  inusitada de mortes, em que os corpos das vítimas são expostos como obras de arte.

Por que escrever a história de um assassino serial a partir de seu próprio ponto de vista? Foi necessário fazer uma pesquisa minuciosa sobre esse universo? 

Eu queria que as pessoas fossem solidárias a ele. Achei que escrever em primeira pessoa era uma boa solução. Eu fiz muita pesquisa: li tudo que achei sobre o assunto nos livros e na internet; falei com inúmeros psicólogos, policiais etc. Gradualmente, comecei a fazer parte do mundo de Dexter. 

Dexter mata apenas assassinos que não foram punidos pelo sistema legal. Há uma frustração das pessoas em relação à falência da justiça? 

Eu não acho que muitas pessoas estiveram próximas o suficiente do sistema legal para realmente entender o quanto tedioso, caprichoso e ineficiente ele é. Caso contrário, ninguém mais processaria ou chegaria perto dos tribunais. A justiça de real é a mesma desde sempre, é uma variação do “olho por olho”. Você pega minha vaca ou minha mulher e tem que me dar algo de igual valor – seja uma vida, um  braço ou um suco de maçã. O que deixa as pessoas malucas é que o sistema constantemente manipula algo tão simples como isso. “Justiça” não tem mais muito a ver com “correto”.  

Você critica constantemente no livro aspectos da arte contemporânea. Parece ser algo que o incomoda.

Eu gosto da arte bem feita: algo que combine paixão, intelecto e técnica. Eu acho que, por ser a arte intangível, nós às vezes ficamos um pouco bobos diante de uma obra. Não acho que eu criticaria isso, mas é um assunto que dá para tirar um sarro.

Já se deparou com um trabalho artístico que considerou uma picaretagem?

Eu fui a uma série de galerias em que todo mundo observava com aspecto solene uma penca de galhos  ou cocô de cachorro pintados com spray. Talvez eles estivessem dizendo algo até necessário, mas também muito idiota. Para escrever o livro,  fiquei pensando na arte performática por um tempo e nas medidas extremas que as pessoas tomam em nome de seu trabalho. 

Outro tema bastante presente  neste quarto livro é a dificuldade de morar em Miami. Você, que cresceu na cidade, acha que ela mudou radicalmente? 

Eu sinto muita saudade da Miami, onde cresci (ele mora agora na outra costa da Flórida). Miami era realmente muito diferente: você poderia mandar as crianças saírem de manhã e dizer: “Não volte até a noite”. Se você fizer isso hoje, vai perder as suas crianças. 

O personagem sempre frisa que não sente emoções e agora ele é um homem casado. Sua mulher, Rita, não vai desconfiar de que há algo errado com ele? 

É muito fácil enganar as pessoas  – nós mesmos fazemos isso toda hora, todo dia. Não acredita em mim? Observe as pessoas em uma reunião de negócios, durante um casamento, ou num primeiro encontro. Enfim, em qualquer lugar onde você tem que ter uma espécie de conduta convencional. São apenas sorrisos falsos, clichês solenes. Todo mundo faz isso e todo mundo acredita nisso.  Rita, provavelmente, não vai descobrir o lado cruel de Dexter, mas quem sabe?

Você gosta da adaptação televisiva que fizeram do seu livro? Você assiste?

Eu gosto, sim. Não é nada do que eu esperei que seria. É bom, e as adaptações na TV nunca são. Eu assisto, sim, mas estou atrasado na temporada atual porque tenho viajado muito. 

O  que mais lhe agrada e o que você definitivamente não gosta  no seriado? 

Eu acho que eles fizeram um trabalho sensacional de traduzir minhas ideias, o que pode parecer pretensioso, mas eu fiquei muito surpreso. Eu trabalhei em Hollywood e sei que isso não ocorre com frequência. Não gosto das situações ocasionais que são TV pura e não traduzem o terrível Dexter. Mas eu sei que eles fazem isso porque é TV e o jogo é assim. 

Qual deve ser a nossa expectativa para o próximo livro? Você já sabe como a série termina?

O próximo livro vai ser ainda melhor – você vai querer comprar duas cópias para ler mais rápido! Eu sei como a série termina, mas não seria justo contar a você. 

Dexter – Design de um assassino, de  Jeff Lindsay. Editora Planeta. 272 páginas. R$ 39,90.