PROGRAMA: Crítica / Desconhecido

Ao contrário do que anuncia o título, quase tudo é bastante conhecido neste thriller de Jaume Collet-Serra. Na tela, o público acompanha uma história centrada no assombrado personagem interpretado por Liam Neeson, que, após um acidente de carro, não é mais reconhecido por ninguém, nem pelos mais próximos. Sem entender o que está acontecendo, ele passa a ser perseguido de maneira implacável. Conta apenas com a ajuda de uma imigrante bósnia (Diane Kruger) e, quem sabe, de um ex-agente da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental (papel a cargo do veterano Bruno Ganz).

Collet-Serra faz com que o espectador acredite em Neeson, tal a veracidade com que se dedica a provar sua verdadeira(?) identidade. Mas, no decorrer da projeção, o diretor dá vazão a um repertório já visto outras tantas vezes. Para começar, reedita perseguições automobilísticas inacreditáveis. Se parece incrível que o personagem de Neeson esteja em perfeita forma – estranheza que o desfecho até  justifica –, mais surpreendente é a habilidade de Kruger no volante. O envolvimento entre Neeson e Kruger, aliás, soa batido, assim como certas sequências, como a correria para desativar uma bomba.

Entretanto, a trama, justiça seja feita, tem certa engenhosidade. A revelação é sugerida, em determinado momento, por Frank Langella: “Suas lembranças não são reais”, revela a Neeson. No mais, tudo é flagrantemente cinzento em Desconhecido, de Berlim aos figurinos dos atores. E há, pelo menos, uma tirada notável dita por Bruno Ganz, encarregado do melhor personagem do filme: “Nós, alemães, gostamos de nos esquecer. Esquecemos que fomos nazistas. Esquecemos 40 anos de comunismo”, exclama. Esquecer, de fato, pode ser bem mais cômodo do que lembrar.