Villas-Bôas Corrêa: A reforma para valer

Quando governador do Rio Grande do Norte, no distante governo do presidente Eurico Gaspar Dutra (31/01/1946 a 31/01/1951), Aluísio Alves revolucionou as campanhas eleitorais, com a criatividade da participação intensa do povo.

Ainda aspirante a candidato, com o fôlego da mocidade e o hábito das longas caminhadas, bateu de porta em porta das casas de Natal, para pedir o voto, expor o resumo do seu programa de governo e o verde da esperança da sua marca de sua campanha e do seu governo. O verde da esperança que era o estandarte que se improvisava com um galho de árvore.

Enquanto o seu adversário, senador Dinarte Mariz, frequentava o gabinete do presidente Dutra, para as longas prosas com a primeira-dama, Santinha Dutra, e se deixava fotografar em manga de camisa saboreando fatias da melancia, Aluísio Alves arrastava multidões para as caminhadas de léguas pelas cidades e arredores. Os exaustos eram substituídos pelos que aderiam às marchas atrás do candidato.

Governador, Aluísio Alves cultivou a birra com o ex-governador, senador Dinarte Mariz, apelando para despachos maliciosos. Quando o Tribunal de Contas do Estado, de nítida maioria dinartista, encaminhou ao governador o pedido de liberação de verba para a pintura externa do prédio venerável, o seu despacho é um primor de provocação: "Concedido. Não podendo limpar por dentro, limpo por fora".  Não é um modelo de boas maneiras no relacionamento entre poderes. Mas um sucesso na gozação do distinto público.

Todo este rodeio para chegar à patusca iniciativa do Senado, renovado com a maioria de ilustres desconhecidos e que em decisão pitoresca resolveu criar uma comissão de reforma política. Presidida pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ), com a grave incumbência de, em 45 dias, organizar uma agenda que abranja tudo ou quase tudo de importante na dispersa legislação eleitoral, financiamento das campanhas, sistemas eleitorais, suplência do senador com a figura anedótica do senador sem voto, o suplente premiado com a convocação para substituir o titular.

Toda esta patacoada não deve dar em coisa nenhuma. É o tipo da iniciativa para encher o tempo de quem não tem o que fazer.

Ora, nada do que se propõe tem sentido. O mal deste Congresso e dos próximos continuará incurável se a presidente Dilma Rousseff não chamar  à fala a maioria que apoia o governo para liderar uma reforma de verdade na Constituição, a crise que soca a porta arrombará fechadura.

O Congresso é o retrato amolecado da crise dos partidos. E não estou falando do  Tiririca e dos semianalfabetos que rabiscam o nome. Mas da maioria, da ampla maioria dos que saltaram a cerca e se aboletaram nas cadeiras da Câmara dos Deputados para não fazer nada, porque não há nada para fazer.

A reforma ética do Legislativo teria que começar com a varredura das mordomias, da semana de dois a três dias úteis, das passagens aéreas gratuitas para o requinte do fim de semana nos lençóis domésticos com a Viúva pagando todas as despesas.

A Câmara dos Deputados não tem como cassar mandatos de semianalfabetos. Mas daria um grande salto se, com um espanador, uma bucha com desinfetante, uma mesa  diretora enérgica e com autoridade, impusesse uma rotina de trabalho aos mandriões que zombam dos que os elegeram.

Perdoem a imodéstia, mas faço a minha parte. Como sempre sustentei que o repórter político não deve ter partido, nunca me filiei a nenhuma legenda. E, como não sou obrigado com os meus 87 anos, há duas eleições não entro na fila para cumprir o dever cívico que me dispensou. Nem sei por anda o meu inútil título de eleitor.

O jeito é confiar na presidente Dilma Rousseff. Ou dançar o tango argentino do venerando conselho dos mais velhos.