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Mulheres ameaçadas

Participantes nos protestos políticos, tunisianas podem ter mais a perder com o novo governo

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Depois de muitas mortes e mais de um mês de manifestações, o povo da Tunísia conseguiu derrubar o então presidente Zine el Abidine Ben Ali, que esteve no poder por 23 anos. Já experiente, a população – orgulhosa de ter sido exemplo para outros países, que seguiram seus passos – enviou conselhos e mensagens de apoio aos manifestantes egípcios, através de redes sociais.

Mas há uma força na Tunísia que o resto do mundo talvez desconheça: uma longa tradição de luta pelos direitos femininos. Enquanto outros países árabes menosprezam o valor da mulher, como o Irã – onde ela ainda pode ser apedrejada até a morte por adultério – e Bahrein – onde não pode dirigir nem votar – o fator feminino na Tunísia pode ser considerado um dos mais poderosos e fundamentais na reformulação da região.

Khadija Cherif, secretária da Federação Internacional do Direito da Mulher (IFHR, na sigla em inglês) analisa da seguinte forma:

– As mulheres árabes são as que mais têm a ganhar com as mudanças e esclarecimentos do novo século. Queremos servir de inspiração – diz ela, que lutou contra as forças militares durante as manifestações de janeiro.

As tunisianas foram as primeiras no mundo árabe a receber o direito de votar, logo depois da independência, em 1956. Conquistaram o direito de abortar no mesmo ano em que as mulheres americanas, e têm mais representatividade no Parlamento do que a França. A poligamia é proibida, o casamento deve ser consentido pela mulher, e e as minissaias são tão comuns quanto os lenços muçulmanos usados no cabelo.

As tunisianas desfrutam de um dos mais importantes direitos: recebem boa educação. Lá, há mais mulheres se formando na universidade do que homens, e elas estão se equiparando a eles em profissões importantes, como juízes e médicas.

– Não foi coincidência a revolução ter começado na Tunísia, onde o nível educacional é mais alto, existe uma classe média considerável e mais igualdade entre os sexos. Tínhamos todos os ingredientes para a democracia, mas não a tínhamos de fato – diz a psiquiatra tunisiana, Fatma Bouvet.

Mas, ao mesmo tempo que as mulheres têm mais a ganhar com a liberdade política no país, também têm potencialmente mais a perder.

Grupos feministas árabes apontam para o exemplo do Afeganistão, onde, enquanto havia ocupação soviética, as mulheres podiam frequentar a Universidade. Quando o país foi ocupado pelo Talibã, muitas mães foram proibidas de mandar suas filhas até para o ensino primário.

– O governo tunisiano era neutro e mantinha um discurso moderado. Agora que eles estão revendo suas leis, ninguém garante que a tolerância vá continuar, especialmente em relação aos direitos das mulheres – afirma Eric Goldstein, diretor do Observatório dos Direitos das Mulheres no Oriente Médio e no Norte da África.

Mas, como lembra a advogada especializada em direitos humanos, Radhia Nasraoui,  o primeiro-ministro que assumiu o poder, Mohamed Ghannouchi, discursou recentemente sobre o compromisso de proteger os direitos femininos.

– Pode ser tática, mas isso indica que ele sabe que retroceder neste ponto não é uma boa forma de ganhar apoio neste momento.

Nasraoui reconhece a coragem das mulheres tunisianas. Segundo ela, quando as forças de segurança de Ben Ali pressionaram seus clientes para desistir da revolução, grande parte dos homens desistiu, mas as mulheres não cederam.

– Talvez o país esteja, em breve, preparado para ter uma líder do sexo feminino. As mulheres certamente já estão – provoca ela.