Editorial: Não satisfeito, Kadafi quer um banho de sangue

A ameaça feita pelo ditador líbio Muamar Kadafi, de que só deixará morto o posto que ocupa desde 1969, é preocupante. Dono de uma fortuna estimada em mais de US$ 70 bilhões, Kadafi tem condições de sobra de cumprir a promessa, embora membros de seu exército já comecem a aderir ao levante nas cidades do norte do país. Sua queda, portanto, não será tão rápida quanto foi a de Hosni Mubarak, no Egito.

Kadafi cultiva a imagem de pai do povo líbio. Depois de chegar a chefe de Estado, ele proibiu as bebidas alcoólicas, mas seu filho costuma vir ao Brasil e promover festas de arromba, como revelou a coluna Informe JB de ontem. Nacionalizou o petróleo, mas boa parte de sua fortuna vem de um fundo de investimentos criado com a receita da venda das reservas de óleo do país.

Ou seja, como todo ditador, Kadafi adota o lema Faça o que eu digo mas não o que eu faço”. O povo líbio parece ter se cansado. Contagiado pela onda de liberdade que atinge vários países da África e do Oriente Médio.

O problema é justamente a renitência do líder de largar as benesses. Se Kadafi for mesmo resistir, seu país conhecerá um dos maiores banhos de sangue de sua história – basta lembrar que até agora quase 700 pessoas morreram até agora.

Será talvez a última provação a que esse povo será submetido, depois de 30 anos de tirania e desmandos e das sanções internacionais que vitimaram a população da Líbia entre 1992 e 1999.