Recuerdos de Uruguai

H oje a casa de apostas (clandestina) vai fechar mais tarde para aguardar o resultado de Brasil e Uruguai, que decidem o Sul Americano Sub-20. É um jogo para notívagos – poucos, nas madrugadas de domingo – e já posso antever a cena no salão de apostas: um monte de frequentadores dormitando, esparramados sobre e as mesas e acordando, sobressaltados, aos gritos de gol do locutor – “Gol de quem? Gol de quem?” O Brasil é favorito, e já botei uns trocados na sua vitória mas – que a pátria me perdoe – vou torcer caladinho pelos uruguaios. O Brasil é o país que detém mais conquistas nesses torneios (11), já está classificado para a Olimpíada de Londres – seu objetivo principal – e um mau resultados não manchará seu currículo de pentacampeão mundial. Em compensação , para o Uruguai o título será uma façanha nacional e certamente colocará a conquista dos garotos nas manchetes dos jornais.

Tenho uma admiração especial pelo Uruguai – o mesmo não posso dizer da terra do milonguero Jorge (pronuncia-se Horhe). Não sei se pelo fato de um dia o Uruguai ter sido parte do território brasileiro (Província Cisplatina). Não sei se quando menino ficava penalizado ao ver no mapa múndi aquele país pouco maior que o Ceará suportando o gigantesco “presunto” brasileiro. Mais crescidinho ouvia os adultos dizendo que o Uruguai “é o país mais tolerante e democrático do continente”.

Foi a Montevidéu que fiz minha primeira viagem internacional pela Editoria de Esportes do velho JB , no início dos anos 70. O editor Oldemário Touguinhó – sempre lembrado – havia me enviado para fazer uma grande reportagem sobre a crise no futebol uruguaio. Só que, ao chegar, dei de cara com uma eleição para presidente da República . O Brasil vivia a plenitude de sua ditadura militar e como me desacostumara àquelas festas nas ruas logo me incorporei às passeatas e comícios da Frente Ampla, uma aliança de esquerda, criada para enfrentar os partidos Blanco e Colorado, que se revezavam no poder desde sempre.

Acabei escrevendo uma materinha de uma lauda sobre o futebol uruguaio e uma grande reportagem de muitas laudas sobre as campanhas presidenciais. Lembro que no texto sugeria as agências de turismo organizarem excursões a Montevidéu para aqueles brasileiros com saudades da democracia. Ano seguinte , o presidente eleito, José Maria Bordaberry (a frente de esquerda teve 20% dos votos) fechou o Congresso e instalou o primeiro regime de força da história do Uruguai.

O futebol uruguaio conheceu uma longa crise que parece, agora, vai chegando ao fim. O Uruguai esteve nas semifinais da Copa da África e para mostrar que não foi por acaso disputa hoje um título sul-americano. Trata-se de uma proeza fantástica considerando – como já disse antes – que o Uruguai tem pouco mais de 3,3 milhões habitantes. Se você eliminar os idosos , mulheres e crianças, sobra muito pouco para formar um time de futebol! Recado para Jorge , leitor do JBOnline: Olha aí, milonguero! O Brasil vencendo ou perdendo, às duas da madrugada vou lhe telefonar para dizer que estaremos esperando pela Argentina na Olimpíada de 2016 no Rio.

Na de 2012 , em Londres , vocês vão ver o torneio de futebol pela televisão. Pena!.