Daniel Schenker N em tente enquadrar o trabalho de Alessandra Colasanti em categorias específicas. Seria uma tarefa realmente inútil. Atriz, diretora e dramaturga, ela quer mesmo é fugir do lugar-comum, ao reunir, em seus espetáculos, algumas das principais características do que talvez, e apenas talvez, se possa chamar de movimento performático (vertente desenvolvida desde os anos 60, em especial em Nova York, mas não tanto por aqui). É o que se percebe nos três espetáculos que apresenta simultaneamente – Ba nal , em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana; Coelho branco sobre branco , no Oi Futuro, do Flamengo; e An ticlássico , com estreia marcada para o próximo dia 19 numa nova sala do Sesc Pinheiros, em São Paulo. Nos dois primeiros, assina autoria e direção, e, no último, trabalha como atriz/performer.
Banal chama a atenção pela mistura entre teatro e artes plásticas, parentesco experimentado com frequência atra vés de instalações cenográficas. O mecanismo reposiciona o lugar do espectador em relação ao que assiste. A autora criou um personagem, não por acaso chamado Século, um artista contemporâneo que inaugura na galeria de arte Museu Cubo Branco uma criação intitulada Banal .
– Acho que as artes plásticas entram na peça mais como pensamento do que como apropriação verdadeira de seus procedimentos – analisa Alessandra Colasanti. – Há a utilização de vídeo-arte e performance. Entretanto, o mais importante foi imprimir um discurso sobre a arte do nosso tempo. Coloco os elementos à vista e os deixo abertos para o espectador fazer suas próprias articulações.
Mantendo fidelidade às suas investigações, ela afasta o espectador de sua condição de apreciador passivo. Questiona as fronteiras tradicionais entre palco e plateia, ator e per sonagem, realidade e ficção.
Mas houve, em Banal , a preocupação de eleger um “universo temático”: a (banalização da) violência urbana. Para tanto, mescla dramaturgia, manchetes de jornal e depoimentos pessoais dos atores (Carol Portes, Fabrício Belsoff, Fernanda Félix, João Velho e Thiare Maia).
– O efeito que busco atingir é o contraste entre o íntimo e o institucional – conta. – Tanto as matérias de jornal quanto os depoimentos sobre a violência são reincidentes em nossas vidas e se repetem com pequenas variações. Quando um relato entra por um ouvido e sai pelo outro? E quando não? Levar as notícias de jornal para o teatro foi uma tentativa de resgatar o potencial de afeto em cada uma dessas frases, ao mesmo tempo aterradoras e “insignificantes”. Quanto aos depoimentos dos atores, foi o caminho que encontrei para não me ausentar da realidade. Não tínhamos como tocar nesse assunto sem nos inserirmos no trabalho como indivíduos.
Continua na página seguinte.