Polimento democrático e a âncora que faltava

As sobras do passado e os vícios tradicionais ficaram aos cuidados do PMDB DESDE QUE SE TORNOU o foco de uma discussão interminável, antes e depois da passagem do século 19 para o 20, a social-democracia se complicou entre a ideia da revolução social e a da democracia política: a primeira produziu opiniões e teorias, mas deixou para trás a democracia, enquanto a outra se distanciava do viés marxista ortodoxo. Mais adiante, a social-democracia encontrou na classe média a âncora que lhe faltava. Mas não se livrou da maldição marxista e, comprometida com a classe média, sem boa reputação junto ao movimento revolucionário, o pensador alemão Eduard Bernstein não conseguiu sustentá-la como alternativa. E, com a tomada do poder pelos comunistas na Rússia, em 1917, ficou para trás por desvio de conduta revolucionária. O fascismo fermentaria com prioridade na Europa dos anos 20 e não haveria espaço para discussões teóricas.

Desde então, a social-democracia não passou de galho seco na frondosa árvore da revolução mundial, depois de ser deixada à margem do circuito internacional assim que a revolução soviética deu por encerrada a discussão entre revolução e reforma, e passou à ação. A revolução social liquidou a fatura até que o modelo soviético veio abaixo pelas razões óbvias no fim do século seguinte. A tentação da social-democracia rondou de novo as cabeças quando a aspiração de consumo se beneficiou do prestigio político e favoreceu a classe média na ascensão social. O pequeno burguês nem se lembra de que tudo deve ter co meçado com a conclusão a que Bernstein chegou ao observar, no fim do século 19, que algo não funcionava de acordo com a teoria dominante à época, pois o número de ricos continuava aumentando e o proletariado conseguia melhorar salários e condições de trabalho. E, principalmente, a classe média não estava sendo comprimida como se fosse o fim da História. Bernstein acertou em cheio, e não será de espantar que venha a ser o profeta da pequena burguesia, vista por esta fresta que mostra um paraíso social-democrata onde se localizava a questão social.

Falta agora identificar a verdadeira razão pela qual, na vertente da reconstitucionalização brasileira dos anos 80, a social-democracia tenha sido lembrada no Brasil para quebrar a alternância fatal entre liberais e conservadores aprisionados no círculo vicioso em que se revezavam monarquistas e republicanos, sem resolver a parada. Mesmo porque não havia mais saldo, e o prejuízo a remover do caminho já não parecia viável fora dos padrões democráticos. O mais provável é que os fundadores paulistas do PSDB e os mineiros, social-democratas pela própria natureza, reforçaram a iniciativa de plantar a social-democracia. Estavam mais atualizados do que a corrente alternativa que perfilhou a ideia socialista radical, e fundou e embalou o PT no berço sindicalista do ABC.

E iria padecer com o anacronismo de insistir numa luta de classes acolchoada por um velho peleguismo. Por fim, chegou ao poder e, em oito anos, se rendeu ao sortilégio capitalista. As sobras do pas sado e os vícios tradicionais ficaram aos cuidados do PMDB, que honrou o conservadorismo republicano.

O Brasil já desfrutou de dois mandatos sucessivos sob a social-democracia, e se deu tão bem que o PT, ao substituir o PSDB, nem se lembrou de que estava num país com sotaque revolucionário, e numa social-democracia bancada por uma classe média de encher de inveja toda a América Latina. O presidente Fernando Henrique fez que não sabia e Lula só percebeu a diferença, já à saída, quando tomou conhecimento de que a classe média existe (e já mostrou que faz História para nem burguês nem proletário botarem defeito). Não é por acaso que já existe um jeito pequeno burguês de assimilar o estilo Dilma Rousseff de dar um polimento democrático no Brasil.