TRÍPOLI - Capturados pelas forças insurgentes e detidos num hospital de Benghazi, os soldados das forças leais a Muamar Kadafi dizem que foram enganados para que fossem combater seus compatriotas no leste da Líbia. Os soldados falam de sua surpresa ao descobrir que o inimigo não se parecia com os terroristas da Al-Qaeda, nem com os agentes do Mossad israelense, muito menos com mercenários estrangeiros descritos pelo regime.
Azumi Ali Mohamed, de 25 anos, conta que era reservista e foi capturado em 20 de março quando seu comboio, formado por 400 soldados líbios e mercenários africanos, foi bombardeado numa estrada em pleno deserto, não muito longe de Ajdabiya, sul de Benghazi.
Sua missão era garantir a segurança da zona e combater "os mercenários e a al-Qaeda", conforme explica, dizendo que se sentiu consternado ao descobrir que estava lutando contra seus compatriotas. Segundo ele, todos os celulares foram confiscados em Trípoli para evitar que a mensagem governamental sofresse interferências no exterior.
Depois de ter sido preso pelos rebeldes e curado por seus médicos, assegura: "Sei que agora quero combater contra as forças de Kadafi".
A seu lado, Mustafa Mohamed Ali, militar de carreira de 40 anos, caiu em uma emboscada dos rebeldes em 18 de março, num momento em que saía de Ajdabiya, sobrevivendo a seis impactos de bala, ao contrário dos outros militares que viajavam com ele. "Eu era leal a Kadafi. Agora já não sou mais, depois de ter descoberto a verdade sobre esses combates", explica. "Em Benghazi, encontrei jovens que faziam a revolução para escapar das trevas em que vivíamos", acrescenta.
Como seu jovem vizinho reservista, diz que os rebeldes prometeram que serão libertados e que poderão voltar para casa depois da queda de Kadafi.
Junto a eles, Wanis Ibrahim Hassan, de 30 anos, está gravemente ferido. Ele fazia parte da tripulação de um tanque que chegou a Benghazi em 19 de março com a ordem de tomar o aeroporto, mas recebeu o impacto de um foguete lançado pelos rebeldes. Fragmentos de metal o atingiram nas costas, no braço direito, nas pernas e na cabeça.
Suas declarações são um tanto contraditórias. Primeiro ele diz que quis fugir para não atirar em inocentes, e depois diz que estava convicto de que havia sido mobilizado para combater terroristas.