Embaixador do Brasil no Egito apoia dissolução do Parlamento

O embaixador do Brasil no Egito, Cesário Melantonio Neto, considerou a decisão de dissolver o Parlamento egípcio e de suspender a constituição do país como o "caminho mais natural" para se estabelecer a democracia. De acordo com o embaixador, não há como construir um governo democrático com um Parlamento eleito sob suspeita de fraude e com uma constituição redigida sob um regime ditatorial.

"Esse é o caminho mais natural para a democracia no Egito. Podemos até comparar com a história do Brasil. Em nossa transição para a democracia, após o regime militar, precisamos de um novo Parlamento e formamos a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou uma nova Constituição para o País, regida por valores democráticos", disse o embaixador em entrevista à Agência Brasil.

A decisão de dissolver o Parlamento e de suspender a constituição foi anunciada neste domingo pelo conselho supremo das Forças Armadas do Egito, que governa o país desde a queda do ex-presidente Hosni Mubarak na última sexta-feira.

O Parlamento egípcio foi eleito em novembro de 2010. As suspeitas de fraudes nas eleições eram fortes e a população não acreditava que Mubarak havia conseguido 97% dos assentos. A Irmandade Muçulmana, partido de oposição à Mubarak, disse que a fraude nas eleições havia eliminado sua presença no Parlamento. Com isso, a reeleição de Mubarak nas eleições presidenciais desse ano estaria garantida.

De acordo com o embaixador, a decisão do Conselho Supremo das Forças Armadas de manter interinamente nos cargos os ministros de Mubarak, inclusive o primeiro-ministro Ahmed Shafiq, se deu por razões meramente econômicas e não se sabe até quando os interinos ficarão no poder. "Seria arriscado não mantê-los neste momento. Mas não se sabe até quando eles ficarão", afirmou.

Os protestos contra Mubarak paralisaram o país e provocaram prejuízos econômicos em vários setores, com efeitos nos bancos, na bolsa de valores, no turismo. "O comércio parou", detalhou o embaixador. Antes do início dos protestos, organismos internacionais que previam um crescimento da economia egípcia em torno de 6,5% para 2011 passaram a reestimar esse percentual em 3,7% após o início das manifestações.

Outro problema grave no Egito é o desemprego, fator que impulsionou as manifestações contra o governo de Mubarak. Cerca de 60% da população tem menos de 30 anos e nesta faixa o desemprego atinge 90%.

Neste domingo, pela manhã, manifestantes continuaram ocupando a Praça Tahrir, no centro do Cairo, mesmo diante da resistência dos militares empenhados em remover a população do local. A praça foi principal palco dos protestos populares iniciados no dia 25 de janeiro, pedindo a saída do presidente.

No entanto, de acordo com o embaixador brasileiro, as manifestações não tinham o mesmo caráter político registrado antes da queda do ditador. A maior parte dos manifestantes pertenciam a grupos organizados de trabalhadores reivindicando melhores condições de trabalho e pagamento de salários atrasados desde o final do ano passado. "A embaixada brasileira fica bem perto da praça e o que pude observar eram manifestações com um caráter mais trabalhista do que político. Houve manifestações de operários, trabalhadores de empresas estatais e outros trabalhadores sindicalizados. Havia até protesto de policiais civis reivindicando melhores condições de trabalho. São outros grupos ocupando o mesmo palco", comentou.

Após 18 dias de protestos, Mubarak renuncia

Começou no dia 25 de janeiro - uma data que ganhou um caráter histórico, principalmente na internet, com o uso da hashtag #Jan25 no Twitter. Naquela terça-feira, os egípcios começaram uma jornada que durou 18 dias e derrubou o presidente Hosni Mubarak. Naquele momento, o líder que estava no poder há 30 anos ainda tinha poderes. No dia 28, ele cortou o acesso à internet e declarou toque de recolher. As medidas foram ignoradas pela população, mas Mubarak disse que não iria renunciar. Em pronunciamento, disse apenas que buscaria "reformas democráticas" para responder aos anseios da população.

No dia 29, uma nova administração foi anunciada. A medida, mais uma vez, não surtiu efeito, e os protestos continuaram. A repressão continuou, e Mubarak colocou a polícia antimotins nas ruas novamente. Nada adiantava. A população aderia em número cada vez maior às manifestações, e a oposição começava a se movimentar. A nova cartada do líder de 82 anos foi anunciar que não participaria das próximas eleições. Mais uma vez sem sucesso. No dia 2 de fevereiro, manifestantes pró e contra Mubarak travaram uma batalha campal na praça Tahrir com pedras, paus, facas e barras de ferro. Depois, houve perseguição a jornalistas.

Os dias subsequentes foram de diálogo e protestos pacíficos. No 17º dia de protestos, centenas de milhares receberam no centro do Cairo a notícia de que o líder poderia, finalmente, renunciar. O esperado pronunciamento se transformou em um balde de água fria quando Mubarak disse que não renunciaria, apesar de passar alguns poderes ao vice, Omar Suleiman. A fúria tomou conta da praça Tahrir, e ninguém levantou acampamento. Por fim, no final da tarde da sexta-feira, dia 11 de fevereiro, Suleiman, em um rápido pronunciamento na TV estatal, informou que Mubarak renunciava, abrindo um novo capítulo na história do Egito.