Maré humana invade o Cairo para participar da "Marcha do Milhão"

CAIRO - Dois bonecos enforcados, com uma estrela de Davi pintada na gravata e muitos dólares saindo dos bolsos, representam o presidente egípcio Hosni Mubarak e podem ser vistos pendurados nos sinais de trânsito da praça Tahrir e dão o tom da "Marcha do Milhão" que a população egípcia realiza nesta terça-feira contra o regime no poder.

"Este vai ser um grande dia, o dia da liberdade", exclama Ahmed En Nahas, um diretor de cinema de 60 anos, que gesticula para mostrar as milhares de pessoas agrupadas na praça Tahrir ("Libertação", em árabe), reduto dos manifestantes há semanas.

"Até há pouco tempo estas pessoas não teriam saído de maneira tão maciça por medo que a polícia disparasse contra elas", acrescentou, mostrando a pequena filmadora com que pretende registrar as manifestações do dia.

Perto da ponte sobre o Nilo, Qasr An Nil, uma maré humana aflui sem parar desde as primeiras horas do dia, respondendo ao chamado dos opositores para que um milhão de pessoas se reúnam em Tahrir e apliquem um golpe decisivo ao poder de Mubarak, que dirige o país há 30 anos com mão de ferro. O ambiente é mais tenso do que nos dias anteriores, apesar da presença de várias famílias.

Uma menina de cinco anos se diverte enquanto seu pai dança com ela nos ombros, ao ritmo do slogan entoado pela multidão: "O povo quer que Mubarak saia". Apesar de o acesso à internet estar proibido desde sexta-feira passada, as novas tecnologia estão muito presentes em Tahrir, onde inúmeros manifestantes enviam mensagens, tiram fotos e filmam a movimentação.

Um jovem abaixa as calças diante da imprensa ocidental para mostrar as marcas do impacto da bala de borracha que recebeu em um dos protestos. "Vejam o que fizeram comigo", afirma. Perto, um grupo de homens barbudos exibe um cartaz onde afirmam estar "dispostos a morrer pelo Egito".

"Mubarak demonstra que está desconectado da realidade", explica Omar, um jovem que exibe um cartaz dirigido ao presidente Barack Obama e à chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, e que afirma: "Não queremos diálogo, e sim que Mubarak saia".

Na praça, todos os egípcios parecem reunidos, sejam laicos, muçulmanos ou cristãos. "Jesus nos dará uma vida melhor. Vai embora, Hosni, para que nós desfrutemos dela", afirma o cartaz de Nader e Ihab, dois jovens coptos. "Há 10 anos existe uma perseguição contra os cristãos e a única coisa que Mubarak fez foi tentar escondê-la", denunciam.

Antes de entrar na praça, os manifestantes tiveram de se submeter a controles de identidade por parte dos militares que vigiam os acessos a Tahrir. As Forças Armadas continuam com uma boa imagem entre os manifestantes.

Quando um ônibus cheio de soldados tenta abrir passagem a buzinadas, a multidão ao invés de reclamar, grita e aplaude: "O povo e o Exército são o mesmo braço".

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