Mubarak pede que novo premier impulsione democracia no Egito

CAIRO - O presidente egípcio, Hosni Mubarak, pediu a seu novo primeiro-ministro, Ahmed Shafiq, que dialogue com a oposição para promover a democracia no país, em mensagem por televisão na noite deste domingo.

Mubarak, encurralado pelos protestos maciços em todo o país e pela pressão internacional, pediu a Shafiq, um militar nomeado este sábado para o posto, que empreenda reformas na economia, orientadas à criação de emprego e ao controle da inflação, segundo declarou na televisão estatal Nile TV.

O líder egípcio, no poder desde 1981, tenta deste modo aplacar a crescente contestação dos cidadãos contra seu regime nas principais cidades do país, desde que na terça-feira passada começaram as manifestações.

Enquanto isso, a fragmentada oposição egípcia deu este domingo passos decisivos para se preparar perante uma eventual mudança de regime, com a presença pela primeira vez do prêmio Nobel da Paz Mohamed El Baradei na praça Tahrir, epicentro do protesto, e a criação de um comitê com os militares para negociar a transição.

Além disso, a polícia voltou nesta segunda-feira às ruas do Cairo para evitar os atos de pilhagem e vandalismo, embora a principal praça do Cairo continue sob vigilância dos militares.

 

Egípcios desafiam governo Mubarak

A onda de protestos dos egípcios contra o governo do presidente Hosni Mubarak, iniciados no dia 25 de janeiro, tomou nova dimensão na última sexta-feira. O governo havia tentado impedir a mobilização popular cortando o sinal da internet no país, mas a medida não surtiu efeito. No início do dia, dois mil egípcios participaram de uma oração com o líder oposicionista Mohamad ElBaradei, que acabou sendo temporariamente detido e impedido de se manifestar.

Os protestos tomaram corpo, com dezenas de milhares de manifestantes saindo às ruas das principais cidades do país - Cairo, Alexandria e Suez. Mubarak enviou tanques às ruas e anunciou um toque de recolher, o qual acabou virtualmente ignorado pela população. Os confrontos com a polícia aumentaram, e a sede do governista Partido Nacional Democrático foi incendiada.

Já na madrugada de sábado (horário local), Mubarak fez um pronunciamento à nação, no qual disse que não renunciaria, mas que um novo governo seria formado em busca de "reformas democráticas". Defendeu a repressão da polícia aos manifestantes e disse que existe uma linha muito tênue entre a liberdade e o caos. A declaração do líder egípcio foi seguida de um pronunciamento de Barack Obama, que pediu a Mubarak que fizesse valer sua promessa de democracia.

O governo, encabeçado pelo premier Ahmed Nazif, confirmou sua renúncia na manhã de sábado. Passaram a fazer parte do novo governo o premier Ahmed Shafiq, general que até então ocupava o cargo de Ministro de Aviação Civil, e o também general Omar Suleiman, que inaugura o cargo de vice-presidente do Egito - posto inexistente no país desde o início do governo de Mubarak, em 1981.

Mubarak, à revelia da pressão popular que persiste nas cidades egípcias, ainda não deu sinais de que irá renunciar. No domingo, o presidente egípcio se reuniu com militares e anunciou a ampliação do toque de recolher, bem como o retorno da política antimotins para tentar conter as manifestações. E a a emissora Al Jazeera, que vinha cobrindo de perto os tumultos, foi impedida de funcionar.

Enquanto isso, a oposição segue se articulando em direção a um possível novo governo para o país. Em um dos momentos mais marcantes desde o início dos protestos, ElBaradei discursou na praça Tahrir e garantiu que "a mudança chegará" para o Egito. Já passam de 100 os mortos desde o início dos protestos, na última terça.