Vítimas da Praça da Paz Celestial pedem que Europa pressione China

Agência EFE

PEQUIM - Nesta segunda-feira, dia do 18º aniversário do massacre promovido pelo Exército chinês contra estudantes desarmados na Praça da Paz Celestial, em Pequim, ativistas e vítimas pedem que a Europa pressione o Governo da China para assumir responsabilidade no caso.

- O embargo de armas da União Européia (UE) foi devido ao ocorrido na Praça da Paz Celestial e tem relação com a atitude do Governo para resolver os casos de mortes, prisões e prejuízos causados pelo Exército.

Enquanto isto não se resolver, o embargo não deve ser suspenso - disse Liu Xiaobo, considerado o ideólogo do protesto.

Segundo certas fontes, entre 400 e 2.000 manifestantes morreram no massacre da Praça da Paz Celestial.

Durante dois meses, os ativistas protestaram pacificamente exigindo o fim da corrupção e mais liberdade.

Com isso, pela primeira vez desde que chegou ao poder, em 1949, o Partido Comunista Chinês foi ameaçado.

Para suspender o embargo, a UE exige da China garantias de respeito aos direitos humanos. Isso porque até hoje os ativistas da Praça da Paz Celestial são perseguidos e atacados.

Pelo menos 13 ainda estão presos, indica um relatório da ONG Chinese Human Rights Defenders, que inclui também os nomes de dez pessoas executadas nos dias seguintes ao 4 de junho de 1989.

O Governo chinês mantém o caso encerrado e trata o assunto como segredo de Estado, alegando que 'o incidente do século passado' foi necessário para manter a estabilidade do país.

O Ministério de Assuntos Exteriores não respondeu às perguntas da Efe sobre se a postura ainda é mantida.

Liu, intelectual de 51 anos que ainda hoje é vigiado e que deu início a uma greve de fome em 1989 na Praça da Paz Celestial, diz que a 'Europa tem medo de perder terreno no comércio com a China, mas se fosse mais exigente politicamente com Pequim, se beneficiaria economicamente'.

- O Parlamento Europeu poderia se pronunciar e condenar a atitude de Pequim pela Praça da Paz Celestial. Este tipo de ação poderia servir de pressão para o Governo chinês e de apoio às pessoas que ainda estão lutando para conseguir justiça aos mortos - disse Liu.

A líder do grupo Mães da Praça da Paz Celestial (que reúne 128 famílias de vítimas), Ding Zilin, disse que a 'Europa nunca deveria levantar o embargo de armas', pois 'o atual Governo chinês carrega uma máscara de direitos humanos que só veste no exterior'.

Países como França, Alemanha, Espanha, Portugal e Itália são favoráveis a suspender o embargo.

Porém, em quase duas décadas, o Governo se negou a reabrir o caso.

Muitos dos manifestantes passaram anos na prisão, como Wang Guoqi, de 44 anos, um dos fundadores do movimento na China, que disse lembrar da prisão como algo 'terrível'.

- Passei 11 anos na prisão por participar do Partido Democracia e Liberdade, desde 1992 - afirmou Wang, operário desempregado que, apesar da punição, continua politicamente ativo.

Os três têm certeza de que futuramente haverá democracia na China - mesmo que eles não cheguem a assistir ao processo.

Porém, não acreditam que Pequim aceitará as reivindicações das vítimas da Praça da Paz Celestial, como fornecer um número de mortos com nomes e sobrenomes, assumir responsabilidades políticas e legais e conceder uma compensação aos deficientes e famílias dos mortos.

- O Governo não vai assumir que o 4 de junho foi um erro, porque atacaria seu próprio poder. Se reabrir o caso, ocorrerá um efeito dominó, pois a primeira reação seria o questionamento dos que estão no poder, que chegaram através da violência e da corrupção - afirmou Liu.

O escritor compara ainda a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 com a de Berlim em 1936, na Alemanha nazista, dizendo que foi 'a primeira vez que se realizaram sob uma ditadura, e a China será a segunda'.

Os três opositores admitem que a situação na China é melhor que nos tempos de Mao Tsé-tung, 'quando não se podia nem sonhar em se opor'.

- A de hoje é uma ditadura branda - disse Liu, na qual o Governo só persegue aqueles que protestam abertamente, como ocorreu no massacre da Praça da Paz Celestial, ou, atualmente, o grupo Mães da Praça da Paz Celestial.

Segundo o intelectual chinês, houve 'progressos', por causa da pressão civil, 'e retrocessos'.

Já Wang acredita que o Governo tem sido mais flexível com ele nos últimos dois anos, nos quais não foi preso, o que qualifica de 'bom sinal'.

Enquanto, para Ding, o fato de que o regime chinês esteja se abrindo é uma resposta a uma exigência mundial, e não a um desejo próprio.