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CIDADE DO VATICANO - Num inesperado recuo, o papa Bento 16 vai restaurar os poderes e o prestígio de um departamento do Vaticano que supervisiona o diálogo com o Islã, um ano depois de ter causado polêmica por esvaziá-lo.
A decisão ocorre num momento em que as relações entre muçulmanos e católicos ainda se ressente dos efeitos do discurso de setembro em que Bento 16 aparentemente apontava o Islã como uma religião violenta.
O cardeal Tarcisio Bertone disse em entrevista no fim de semana ao jornal La Stampa que o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso vai se tornar novamente 'um departamento separado'.
Em março de 2006, Bento 16 colocou esse departamento sob a égide do Ministério da Cultura do Vaticano e afastou seu presidente, o arcebispo britânico Michael Fitzgerald.
A decisão foi criticada por católicos e muçulmanos envolvidos no diálogo, para os quais o fechamento do órgão passava um sinal errado ao mundo islâmico. Informado sobre a retomada, um dirigente islâmico afirmou, pedindo anonimato, que isso seria 'uma coisa muito positiva para os muçulmanos'.
Segundo essa fonte, a fusão do departamento com o Ministério da Cultura havia indicado que o papa pretendia focar o diálogo inter-religioso no contato com outras igrejas cristãs.
Em seu discurso de setembro em Regensburg, Alemanha, o papa citou um imperador bizantino do século 14 segundo o qual o Islã só trouxera o mal ao mundo e era difundido pela espada, um método que seria não-razoável e contrário à natureza de Deus.
Ele mais tarde lamentou o 'mal-entendido', que provocou ataques a igrejas no Oriente Médio, a morte de uma freira na Somália e outros protestos em todo o mundo.
Mas, ainda no mês passado, o discurso de Regensburg continuava repercutindo nas relações entre as religiões.
Quando o ex-presidente iraniano Mohammad Khatami se encontrou com o papa, em 4 de maio, disse que as feridas entre cristãos e muçulmanos continuavam 'muito profundas' devido ao discurso.
Alguns observadores viram a questão de Regensburg como consequência direta do rebaixamento do gabinete que cuidava do diálogo com o Islã e do afastamento de Fitzgerald, já que o Vaticano ficou sem um especialista de primeira linha para dar assessoria ao papa sobre o Islã.
- Parecia que aquilo era o fim do diálogo com os muçulmanos, disse a fonte islâmica, acrescentando que as relações já haviam se recuperado em parte desde a visita do papa à Turquia, em novembro de 2006, quando ele rezou junto com um imã na Mesquita Azul de Istambul.
Essa fonte islâmica disse torcer também pela volta de Fitzgerald, 'a melhor pessoa que o Vaticano tinha para o diálogo com os muçulmanos'.