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CARACAS - A substituição na Venezuela, na segunda-feira, de um canal de TV oposicionista por uma rede favorável à 'revolução socialista' do presidente Hugo Chávez detonou críticas duras de que ele estaria minando as liberdades democráticas.
O presidente tirou o canal RCTV do ar pouco depois da meia-noite, no domingo, silenciando um dos grandes opositores das reformas responsáveis por dar-lhe maior controle sobre o Judiciário, as Forças Armadas e o setor petrolífero da Venezuela (membro da Opep, Organização dos Países Exportadores de Petróleo).
A União Européia (UE) afirmou estar preocupada com a decisão de substituir o canal mais popular da Venezuela por uma nova rede estatal sem a realização de um processo de concorrência pública pela licença de transmissão.
- A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são elementos essenciais de uma democracia - disse a Presidência da UE, ocupada atualmente pela Alemanha.
O fim do canal amplia sensivelmente a presença do governo nos meios de comunicação venezuelanos -- as três principais redes do país são agora ou controladas pelo governo ou pouco críticas sobre as reformas responsáveis pela concentração de poder.
- Estamos avançando rumo à conversão da mídia em uma arma política controlada pelo Estado - afirmou a um jornal Marcelino Bisbal, professor de jornalismo na Universidade Católica, em Caracas.
Os meios de comunicação que fazem oposição na Venezuela foram acusados várias vezes de violar os princípios básicos da imparcialidade em sua cobertura jornalística.
A RCTV e outros meios deram apoio declarado a uma tentativa de golpe realizada em 2002 contra Chávez, que neste ano começou a governar por decreto e a construir um Estado de partido único. Em um programa de despedida marcado por lágrimas, os funcionários da RCTV lotaram um estúdio e rezaram juntos.
- Não percam as esperanças. Vamos nos reencontrar em breve - disse o apresentador Nelson Bustamante aos telespectadores. Funcionários de várias categorias, de cinegrafistas a maquiadores, prometeram continuar aparecendo na sede do canal enquanto os executivos da RCTV estudam planos de prosseguir com as transmissões via Internet ou rádio.
O novo canal público deu início a sua programação apresentando um número de música e dança tradicionais da Venezuela. Pela manhã, exibiu um programa de aeróbica em que várias pessoas bronzeadas e de corpo atlético realizavam movimentos de kickboxing ao som de uma batida eletrônica.
O fechamento da RCTV foi condenado pelo Senado dos EUA e pelo Parlamento da UE, mas os simpatizantes de Chávez justificaram a medida apontando para a falta de ética jornalística do canal.
A RCTV passou a transmitir filmes e desenhos quando os ventos começaram a soprar a favor de Chávez em 2002 e recusou-se a mostrar as imagens das grandes multidões reunidas nas ruas. O instituto de pesquisa Datanalisis descobriu que quase 70 por cento dos venezuelanos eram contrários ao fechamento da RCTV. Mas a maior parte desses citou como justificativa para sua opinião o fim de suas novelas favoritas, e não a defesa da liberdade de expressão.
Entre os que foram às ruas no domingo, na região central de Caracas, para festejar a medida, alguns defendiam que o presidente prosseguisse nesse caminho e que fechasse as demais redes de TV oposicionistas ainda em funcionamento, como a Globovision.
- Todas elas participaram do golpe e alimentaram a violência', afirmou o lojista Jose Quijada, 58, que usava uma camiseta vermelha, marca dos simpatizantes de Chávez.