Agência JB
CARACAS - Há quatro anos, a emissora venezuelana RCTV fez sua audiência urrar ao mostrar o presidente esquerdista Hugo Chávez errando a grafia de uma palavra, durante a promoção de uma campanha nacional de alfabetização. Meses depois, o governo aprovou leis antidifamação que obrigaram o programa humorístico Radio Rochela, que por mais de 40 anos zombou de presidentes, a tirar do ar as paródias em relação a Chávez.
Agora, Chávez ri por último: a RCTV sai do ar na noite de domingo. Adversários dizem que a recusa do governo em renovar a concessão do canal é uma agressão à liberdade de imprensa e uma nova prova de que a auto-intitulada revolução socialista do ex-militar está centralizando poderes e tentando esmagar a oposição.
- Chávez vai silenciar os que o apóiam, vai silenciar os que são contra ele - disse a repórter Berenice Gómez, de 30 anos, numa lacrimosa reunião de funcionários da RCTV nesta semana.
- A única voz que será mantida será a dele.
Chávez, aliado da Cuba comunista, diz que a RCTV está perdendo a concessão por ter apoiado o frustrado golpe de Estado de 2002, por ter incitando a manifestações contra o governo e por apresentar telenovelas vulgares. O canal foi criticado também pelas representações pejorativas que faz dos pobres, o eleitorado cativo que ajudou a reeleger Chávez em dezembro. O presidente pretende substituir a RCTV por um canal comunitário, patrocinado pelo governo.
- Não haverá concessão para o canal golpista chamado RCTV - disse Chávez em dezembro a uma platéia militar.
Mesmo críticos de Chávez admitem que a mídia venezuelana, especialmente a RCTV, viola repetidamente a ética jornalística ao dar apoio ostensivo a políticos de oposição. Chávez já tem um firme controle sobre o Congresso venezuelano, os tribunais e o crucial setor do petróleo. Adversários dizem que, sem a RCTV, não haverá mais redes nacionais contrárias ao governo, e que o fechamento também vai pressionar outros órgãos de comunicação a atenuarem suas críticas ao governo.
A RCTV começou a transmitir em 1953, e é o mais antigo canal privado do país. A decisão foi criticada no exterior e causou indignação na Venezuela, onde 70 por cento são contra a decisão, segundo um instituto de pesquisas.
- O presidente Hugo Chávez está fazendo mau uso da autoridade reguladora do Estado para punir um órgão de comunicação por suas críticas ao governo - disse José Miguel Vivanco, da entidade norte-americana Human Rights Watch.
O Senado dos EUA deve votar nesta semana uma resolução de apoio à RCTV.