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LONDRES - As políticas do medo estão alimentando abusos a direitos humanos e criando um mundo perigosamente dividido, disse a Anistia Internacional em uma sombria avaliação da desumanidade no globo -- o que inclui menções à violência no Brasil.
- Nosso mundo está tão polarizado quanto estava no auge da Guerra Fria, e de muitas formas é muito mais perigoso - disse Irene Khan, secretária-geral da entidade de defesa dos direitos humanos, em seu novo relatório anual, divulgado na quarta-feira.
A leitura do relatório é cheia de dados perturbadores -- como a perseguição a escritores na Turquia, o assassinato de militantes de esquerda nas Filipinas e o aumento da violência no Brasil.
Ela disse que o medo tem sido um fator positivo para motivar mudanças a respeito do aquecimento global, pois, ainda que tardiamente, os políticos foram pressionados a agir pela opinião pública.
Mas ela afirmou que o medo também está sendo usado para retirar direitos das pessoas, tudo em nome de uma maior segurança.
A Anistia acusou vários governos, dos EUA ao Zimbábue, de desrespeitarem os direitos humanos e alimentarem o racismo com políticas míopes, que promovem o medo e a divisão.
- As políticas do medo estão alimentando uma espiral de abusos de direitos humanos, em que nenhum direito é sacrossanto - observou Khan no relatório da ONG, que reúne 2,2 milhões de membros em mais de 150 países.
- A 'guerra ao terror' e a guerra no Iraque, com seu catálogo de abusos aos direitos humanos, criaram profundas divisões que lançam uma sombra sobre as relações internacionais - disse ela.
A Anistia acusou o presidente dos EUA, George W. Bush, de evocar o medo do terrorismo para fortalecer seus poderes.
- O duplo discurso do governo dos EUA tem sido de uma sem-vergonhice de tirar o fôlego - afirmou o relatório.
O texto também acusa o governo sudanês de ter deixado a Organização das Nações Unidas (ONU) de mãos atadas a respeito do conflito na região de Darfur, onde 200 mil pessoas já morreram.
- Darfur é uma ferida que sangra na consciência do mundo - afirma o relatório.
Sobre a Austrália, a Anistia diz que o governo conservador soou um falso alarme ao retratar refugiados desesperados em barcos precários como uma ameaça à segurança nacional.
Já o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, usou os temores raciais para impor sua própria agenda política e confiscar terras para seus seguidores, segundo a Anistia.
A Anistia disse que a Internet está se tornando uma nova fronteira para a luta pelo direito de discordar do governo em países como Colômbia, Cuba, Camboja ou Uzbequistão.
O texto diz ainda que a crescente polarização fortalece extremistas, ajudando também a islamofobia e o anti-semitismo. O medo, afirma a ONG, alimenta o descontentamento e a discriminação.
Mas o relatório termina em tom otimista, argumentando que os direitos humanos podem ser tratados com tanta eficácia quanto o aquecimento global caso a opinião pública do planeta esteja voltada para isso.
- o poder do povo vai mudar o rosto dos direitos humanos no século 21. A esperança está vivíssima - afirmou