Agência JB
PORTO PRÍNCIPE (HAITI) - A completa falta de controle do poder público sobre áreas do território haitiano vinha afetando pesadamente o cotidiano da população do país, na avaliação do embaixador brasileiro em Porto Príncipe, Paulo Cordeiro de Andrade Pinto. No final do ano passado, auge dos problemas com a segurança pública na capital, conta ele, o final do expediente na capital chegou a ser antecipado para as 16h, a fim de permitir que as pessoas chegassem a suas casas antes do anoitecer.
Nesse período, as escolas também tiveram suas férias adiantadas em uma semana, devido ao grande número de seqüestros e assaltos na capital. O período correspondeu ao auge da insegurança, que é antiga, mas agravou-se com a crise de 2004, que motivou a criação da Minustah.
- Em bairros inteiros, quando cheguei aqui em 2005, não havia transporte público, não havia comércio local. As igrejas estavam fechadas, as gangues dominavam as ruas, e havia patrulhas dos nossos soldados - relata.
- Nós somos testemunhas de uma imensa transformação na vida da cidade - diz ele.
- Hoje, Bel Air, por exemplo, é um bairro normal. Nossos militares recuperaram escolas, a população voltou às lojas. Aquilo ali foi devolvido à população - conta, em referência a um dos principais bairros da capital, cujo controle militar foi obtido em 2005.
Cité Soleil, conquistado pelas tropas em março deste ano, foi um bairro ainda mais importante nessa retomada do controle da capital, conta ele: Foi difícil, houve uma luta armada contra as gangues, mas hoje o bairro está aberto .
- Eu tive que entrar em Cité Soleil em 2005 dentro de um carro blindado do Sri Lanka [um dos países cujas tropas compõem a Minustah], debaixo de um fuzil, olhando pela escotilha, para ir a uma escola. Junto com outros embaixadores, nós nos encontramos com líderes locais, porque tínhamos liberado uma área para que as pessoas pudessem se registrar para o voto - relata, em referência à preparação feita para a realização de três eleições no país, em 2006.
- Nós estamos caminhando para um certo tipo de normalidade. Agora, estão abrindo restaurantes, boates, internet cafés. A cidade está se enchendo de centros onde os haitianos podem se comunicar com a diáspora - relata ele. Depois que os bandidos foram expulsos, os chefes foram aprisionados, respira-se na cidade uma outra atmosfera.
A comunicação dos haitianos com seus parentes no exterior tem importância econômica, explica o embaixador. Segundo o diplomata brasileiro, 1,5 milhão de emigrados enviam anualmente US$ 1,6 bilhão para o país, o equivalente a cerca de metade do Produto Interno Bruto haitiano.
- É quatro vezes o que os grandes países doadores dão ao Haiti - ressalta.
O embaixador diz que, apesar das melhoras, não é o momento de baixar a guarda na questão da segurança.
- Porto Príncipe cresceu nas últimas décadas, é hoje uma grande cidade latino-americana, com 2 milhões de habitantes e todas as mazelas que as metrópoles do nosso continente têm, como a miséria e a criminalidade - afirma.
- Há efetivamente algo novo ocorrendo, um renascimento na vida do país, mas há também uma criminalidade nova que nós devemos estudar. É preciso estar atento, agora, ao restabelecimento da polícia no país.