Agência EFE
CABUL - O presidente afegão, Hamid Karzai, chamou hoje de 'inaceitáveis' as baixas civis nos últimos bombardeios das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que, só na província de Herat, no oeste, causaram a morte de mais de 40 pessoas, informou hoje uma fonte oficial.
- Infelizmente, a cooperação e coordenação que tentamos não deu o resultado que queríamos - disse Karzai.
- Já não podemos mais aceitar as baixas civis como estão ocorrendo. (Isso) está se tornando uma pesada carga para nós, e já não é compreensível - acrescentou.
Segundo a Otan, as tropas teriam causado a morte de mais de 140 talibãs em duas operações no leste e no oeste do Afeganistão, no domingo e na segunda-feira. No entanto, o Governo afegão e vários líderes tribais alegam que uma grande parte dos mortos é de civis. Na operação realizada entre sexta-feira e domingo no distrito de Shindand, na mesma província, morreram pelo menos 40 civis, incluindo mulheres e crianças, segundo o porta-voz do governador de Herat, Farzana Ahmadi. De acordo com Ahmadi, durante os três dias de conflitos e bombardeios, mais de cem casas ficaram destruídas e cerca de 1.600 pessoas fugiram da região por temer futuras operações.
Além disso, no domingo, um bombardeio matou pelo menos seis civis, incluindo duas mulheres, no distrito de Bati Kot, na província de Nangarhar. A população local se reuniu para bloquear a estrada como forma de protesto.
- Lamentamos a morte e os ferimentos de um soldado das tropas internacionais. Mas os afegãos também são seres humanos. Queremos segurança para a nossa população durante as operações - disse Karzai, após um encontro com oficiais da Otan para tentar evitar mais danos a civis.
- Sofremos por causa dos terroristas ou devido às operações da Otan. A intenção das ações é boa, embora, às vezes, erros sejam cometidos. Mas, cinco anos depois, é difícil para nós continuar aceitando baixas civis - acrescentou o presidente afegão.
A morte de seis pessoas alheias aos conflitos no bombardeio sobre Nangarhar gerou uma onda de protestos que já dura quatro dias. Hoje, mil estudantes estiveram presentes em Jalalabad, a capital da província, e bloquearam a estrada que une Cabul ao Paquistão. Os manifestantes gritavam 'morte à América' e 'morte a Karzai'. A população que participa dos protestos quer a retirada das tropas americanas do Afeganistão, disse à agência Efe um morador de Jalalabad, Ajmal Halim.
Hoje, centenas de pessoas também se manifestaram em Herat, em frente aos escritórios administrativos do distrito de Shindand. O comando americano no Afeganistão tinha informado, no domingo e na segunda-feira, da morte de mais de 130 insurgentes durante o fim de semana. As mortes teriam ocorrido na ofensiva da Otan no distrito, mas as autoridades dos Estados Unidos asseguraram que 'não houve baixas civis'. O último dos combates durou 14 horas, e os militares utilizaram fogo de morteiro, granadas e armas leves, antes da chegada de reforços terrestres e aéreos.
- Será preciso ter mais cuidado, e a participação afegã nas tarefas de busca para esse tipo de operação é uma necessidade absoluta. Nos últimos quatro anos, o assunto não se desenvolveu, e isso tem que mudar (...) ou as conseqüências serão ruins para todos nós - disse Karzai.
Este ano, mais de 1.100 pessoas morreram no Afeganistão por causa da violência, e cerca de 4.400 perderam a vida no ano passado.