EUA resistem a pressão alemã para acordo sobre clima no G8

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BERLIM - Os esforços da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para selar, na cúpula de junho do Grupo dos Oito (G8), um acordo internacional de combate às mudanças climáticas enfrenta a resistência dos EUA, indiciou uma autoridade alemã na terça-feira.

Os comentários, feitos pelo enviado do G8 Bernd Pfaffenbach, sugerem que Merkel depara-se com uma difícil missão diplomática nas próximas semanas a fim de convencer os norte-americanos a darem apoio ao acordo que a dirigente espera transformar na peça central da passagem dela pela Presidência do G8.

Feitas diante de um pequeno grupo de repórteres reunido em Berlim, as observações de Pfaffenbach parecem ter por objetivo aplacar as expectativas sobre a assinatura desse acordo na cúpula marcada para acontecer entre os dias 6 a 8 de junho, no balneário de Heiligendamm (à beira do mar Báltico). E visariam também aumentar a pressão sobre o governo dos EUA antes de um encontro, previsto para segunda-feira, entre Merkel e o presidente norte-americano, George W. Bush.

- Essa vem se mostrando uma das minhas áreas mais difíceis nas negociações - disse Pfaffenbach a respeito da questão do aquecimento da Terra.

- Isso se deve parcialmente às reservas, se não à resistência, de um grande país em particular - acrescentou, manifestando um sentimento de frustração quanto às negociações pré-cúpula.

Apesar de tomar cuidado para não mencionar diretamente o nome dos EUA, o enviado deixou claro que se referia aos norte-americanos. Tradicionalmente, o governo Bush, que não assinou o Protocolo de Kyoto (um acordo sobre as mudanças climáticas), reluta em comprometer-se com metas de corte na emissão de gases do efeito estufa, acusados de provocarem a elevação do nível dos oceanos e um aumento no número de secas e enchentes.

Merkel, que ocupa atualmente as Presidências rotativas do G8 e da União Européia (UE), vem apostando em sua boa relação pessoal com Bush e na crescente preocupação da opinião pública com os riscos do aquecimento global para ajudá-la a dobrar os EUA. A Alemanha também convidou países que não fazem parte do G8 (o Brasil, a China, a Índia, o México e a África do Sul) para participarem da cúpula, garantindo assim que estejam presentes no encontro países responsáveis por quase 90 por cento das emissões globais.

Pfaffenbach citou um acordo patrocinado por Merkel em uma cúpula do mês passado, ocorrida em Bruxelas. Pelo acordo, a UE (integrada por 27 países-membros) compromete-se a reduzir as emissões de dióxido de carbono em 20 por cento até 2020 e a ampliar o uso de fontes renováveis de energia.

- Ela deseja internacionalizar o máximo possível esse acordo - afirmou o enviado.

A chanceler deve encontrar-se com Bush, em Washington, na segunda-feira, a fim de assinar um acordo UE-EUA para coordenar os padrões de regulamentação do comércio e para derrubar barreiras ao comércio que não sejam as tributárias.

Os dois líderes devem discutir também as questões energética e ambiental. Diplomatas afirmam, no entanto, que o governo norte-americano continua resistindo às pressões da UE para divulgar uma declaração conjunta e contundente a respeito das mudanças climáticas.

Joachim Wuermeling, autoridade do Ministério da Economia da Alemanha encarregada das questões energéticas, afirmou à Reuters, em uma entrevista concedida no final de semana, que o país europeu desejava dos integrantes do G8 que aceitassem metas compulsórias para aumentar a eficiência no consumo de energia.

Dois anos atrás, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, fracassou em seus esforços para obter, em uma cúpula do G8 realizada na Escócia, um consenso internacional a respeito do combate ao aquecimento global. O principal motivo do fracasso foi a resistência oferecida por Bush.