A canditata à presidência Ségolène Royal usa como argumento ser mulher

Agência AFP

FRANÇA - Dentre as razões para eleger Ségolène Royal à presidência da França está o fato de ela ser mulher, sinal, segundo a candidata, de uma verdadeira mudança, mas este argumento não parece decisivo para motivar os eleitores, e muito menos as eleitoras.

- A candidata socialista colocou em cena e usou de forma estratégica o fato de ser mulher - analisa a cientista política Mariette Sineau,.

Primeira mulher a ter uma chance real de ascender è presidência da França, Ségolène Royal, 53 anos, mãe de quatro filhos, tentou convencer que, com ela no poder, "a política nunca mais será a mesma".

Com o slogan "a França presidente", ela pediu em sua campanha que os franceses dessem um "voto de audácia". Ségolène prometeu uma nova relação de proximidade com os cidadãos, garantiu todos serão ouvidos de verdade. Usou a empatia de "uma mãe que quer para todas as crianças da França o que ela gostaria para seus próprios filhos".

Votar em Ségolène, disse ela, é fazer "progredir a causa das mulheres", que compõem 53% do eleitorado, e também a causa dos "homens e da sociedade inteira".

Ex-ministra da Família, Ségolène está engajada na questão da violência contra as mulheres e quer garantir a igualdade entre homens e mulheres no trabalho.

Enfim, votar em uma mulher, como os chilenos fizeram ao eleger Michelle Bachellet ou os alemães com Angela Merkel, insistiu ela, é "se livrar de velhos preconceitos", "pôr fim a séculos de marginalização" e "é escrever a história da França", afirmou.

Nascida em uma família de sete filhos, onde as meninas eram desvalorizadas por um pai autoritário, Ségolène conta que aprendeu desde cedo a lidar com a injustiça de ser mulher e se tornou livre graças a seus estudos.

No início de abril, dezenas de cartas de mulheres apoiavam sua candidatura e consideravam o momento "uma ocasião histórica" em um país que só concedeu o direito de voto às mulheres em 1944. No relacionamento entre as mulheres e a política, a França está atrás da Europa: a Assembléia Nacional só conta com 12% de mulheres.

Uma França onde "o desprezo misógino" ainda persiste, segundo a candidata e muitos de seus partidários, ela reclama das acusações de "incompetência" e da "agressividade assombrosa" com quem vem sendo tratada.

Em reação, algumas pessoas denunciaram uma "vitimização". "Fazer da feminilidade um argumento de campanha decisivo ou levar tudo para o lado da misoginia não é dar ao sexo um papel exorbitante e ilegítimo?", escreveu Sylviane Agacinski, filósofa e esposa do ex-primeiro ministro socialista Lionel Jospin.

Para Mariette Sinou, "o fato de ser uma mulher jovem" ajudou Ségolène a se impor nas primárias de seu partido no final de 2006, encarnando a imagem "da renovação". Por outro lado, para o pleito presidencial, onde o debate é muito mais aberto, "o efeito mulher" parece quase nulo, segundo os institutos de pesquisa.

Sua qualidade de mulher "colore, em alguns casos mais, outros menos, a imagem que algumas eleitoras têm dela", explica o diretor do instituto CSA Roland Cayrol, que afirma que o eleitorado potencial da candidata é composto tanto por homens quanto por mulheres.

- Dentre as que completaram o ensino superior, algumas mulheres não a consideram uma boa representante das mulheres, julgando-a incompetente - constata ele. Ao contrário, "entre as mais pobres, as eleitoras nos disseram que ''é bom'' ver uma mulher entre os grandes".

- Mas isso não significa necessariamente que elas votarão em Ségolène - finaliza Cayrol.