Agência EFE
JERUSALÉM - O vice-primeiro-ministro israelense, Shimon Peres, disse que, se dependesse dele, não teria iniciado, em julho, o conflito no Líbano contra a milícia xiita Hezbolah, responsável pelo seqüestro de dois soldados israelenses.
- Se dependesse de mim, eu não teria nos colocado nessa guerra - disse Peres, segundo trechos publicados nesta quinta-feira pela imprensa de seu testemunho perante a chamada Comissão Winograd, que investiga os possíveis erros cometidos por Israel no conflito.
Shimon Peres disse também que não teria feito "uma lista de objetivos para a guerra", já que Israel não os tinha porque "não foram eles que começaram a guerra".
- Fomos atacados e precisávamos nos defender do ataque. Foi isso - ressaltou.
- Se é dito que o objetivo principal é libertar reféns (os dois soldados seqüestrados pelo Hezbolah), em essência está se colocando a nação à mercê do inimigo - assegurou o ex-líder trabalhista.
Segundo Peres, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e o ministro da Defesa, Amir Peretz, chegavam às reuniões do gabinete ministerial de guerra "com propostas muito fechadas, e era difícil fazê-los mudar de opinião", pois tinham acabado de se reunir com o Exército. Peres critica que as Forças Armadas tenham apresentado suas opiniões a Olmert e Peretz, deixando de lado os outros ministros do gabinete durante todo o processo de tomada de decisões.
O político afirmou aos membros do órgão presidido pelo juiz aposentado Eliahu Winograd que as Forças Armadas de Israel não estavam preparadas para a guerra porque estavam treinadas para combater outros exércitos e, não, uma "organização terrorista", como o Hezbolah. Shimon Peres acrescentou que Israel perdeu sua capacidade de dissuasão frente aos árabes e ao mundo com o conflito, e disse que, depois dele, há sinais de perda de legitimidade do Estado.
Peres acredita que as tropas israelenses estavam cansadas na batalha do Líbano porque desperdiçaram suas energias em operações contra terroristas palestinos em Gaza e na Cisjordânia. Na opinião do vice-primeiro-ministro, o mundo apoiou Israel no conflito não porque a comunidade internacional considerasse justa sua luta contra a milícia xiita, mas porque viu Israel como uma nação débil. A Comissão Winograd foi designada pelo próprio Governo de Olmert após os protestos da oposição e dos reservistas que participaram do conflito de 34 dias.
Além do testemunho de Peres, a Comissão divulgou hoje também o do comandante geral na reserva Amos Malka, que dirigiu os serviços de inteligência militar entre 1998 e 2001, e o do general brigadeiro Arnon Ben-Ami, responsável pela Autoridade Econômica em casos de Emergência. A pedido do Tribunal Superior de Justiça, a Comissão tornará públicos, antes da Páscoa judaica (Pessach), que começa dia 2 de abril, os testemunhos de Olmert, Peretz e do ex-chefe do Estado-Maior israelense, o general Dan Halutz, que passou para a reserva há dois meses, depois de apresentar sua renúncia.