Igreja Católica: abuso sexual de mais de 200 mil crianças na França, diz relatório

O arcebispo de Reims e chefe da conferência episcopal francesa, Eric de Moulins-Beaufort, falou de vergonha, pediu perdão e prometeu agir

Foto: Reuters / Sarah Meyssonnier
Credit...Foto: Reuters / Sarah Meyssonnier

O clero francês abusou sexualmente de mais de 200 mil crianças nos últimos 70 anos, revelou uma importante investigação divulgada nesta terça-feira (5), e seus autores acusaram a Igreja Católica de fechar os olhos por muito tempo e pediram que fizesse reforma.

As revelações na França são as mais recentes a abalar a Igreja Católica Romana, após uma série de escândalos de abuso sexual em todo o mundo, muitas vezes envolvendo crianças.

A Igreja mostrou "indiferença profunda, total e até cruel durante anos", protegendo-se do que foi abuso sistêmico, disse Jean-Marc Sauve, chefe da comissão que compilou o relatório.

A maioria das vítimas eram meninos, disse ele, muitos deles com idade entre 10 e 13 anos.

A igreja não apenas não tomou as medidas necessárias para prevenir o abuso, mas também deixou de denunciá-lo e, às vezes, colocou conscientemente as crianças em contato com predadores, disse ele.

Falando logo após Sauve na apresentação pública do relatório, o arcebispo de Reims e chefe da conferência episcopal francesa, Eric de Moulins-Beaufort, falou de vergonha, pediu perdão e prometeu agir.

A comissão foi estabelecida por bispos católicos na França no final de 2018 para lançar luz sobre os abusos e restaurar a confiança pública na Igreja em um momento de diminuição das congregações. Funcionou independentemente da Igreja.

Sauve disse que o problema ainda estava lá. Ele acrescentou que até a década de 2000 a igreja mostrava total indiferença para com as vítimas e que só começou a realmente mudar de atitude em 2015-2016.

IGREJA INSTADA A REFORMA

O ensino da Igreja Católica em assuntos como sexualidade, obediência e santidade do sacerdócio ajudou a criar pontos cegos que permitiram o abuso sexual por parte do clero, disse Sauve, acrescentando que a Igreja precisa reformar a forma como aborda essas questões para reconstruir a confiança com sociedade.

Sauve disse que a própria comissão identificou cerca de 2.700 vítimas por meio de um pedido de depoimento, e milhares mais foram encontrados em arquivos.

Mas um amplo estudo realizado por grupos de pesquisa estimou que houve cerca de 216.000 vítimas, e o número pode aumentar para 330 mil, incluindo o abuso por parte de membros leigos.

Houve cerca de 2.900-3.200 pedófilos suspeitos na igreja francesa nos últimos 70 anos, acrescentou ele.

As descobertas francesas vieram um ano depois que a Grã-Bretanha disse que a Igreja Católica havia recebido mais de 900 queixas envolvendo mais de 3.000 casos de abuso sexual infantil na Inglaterra e no País de Gales entre 1970 e 2015, e que havia mais de 100 denúncias relatadas por ano desde 2016.

Antes de Sauve tomar a palavra, François Devaux, que fundou a associação de vítimas La Parole Liberee, disse a representantes da Igreja na apresentação pública do relatório: "Vocês são uma vergonha para a nossa humanidade", antes de Sauve tomar a palavra.

"Neste inferno houve crimes em massa abomináveis ... mas houve ainda pior, traição de confiança, traição de moral, traição de crianças", disse Devaux, que também acusou a igreja de covardia.

Ele agradeceu à comissão, dizendo que esperava que o relatório fosse um ponto de inflexão: "Você finalmente traz às vítimas um reconhecimento institucional da responsabilidade da igreja."(com agência Reuters)

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