Retirada dos EUA é desafio para Afeganistão e para toda a região, diz conselheiro afegão

O conselheiro de segurança nacional afegão Hamdullah Mohib refutou a ideia de que os EUA buscam estabelecer bases militares na Ásia Central após a retirada das suas tropas do Afeganistão

AP Photo / Rahmat Gul
Credit...AP Photo / Rahmat Gul

Assim que os EUA iniciaram a retirada do país, surgiram relatos de que os norte-americanos estariam procurando estabelecer novas bases militares na região, com os países da Ásia Central sendo as opções possíveis.

Falando à agência de notícis Sputnik, o conselheiro de Segurança Nacional afegão Hamdullah Mohib desmentiu as notícias de que os Estados Unidos buscam estabelecer bases militares em outros países da Ásia Central.

"Tanto quanto sei, este não é o caso. Eu acho que houve algum mal-entendido sobre isso. Em nossas conversas com os americanos, eles não estavam procurando qualquer tipo de base em outro lugar", adicionando que "se realmente há uma discussão dessa natureza, eu não tenho conhecimento".

Ao mesmo tempo, o Afeganistão busca apoio técnico por parte de países da região, informou.

"Por exemplo, nós temos helicópteros russos Mi-17. Procuramos repará-los quando é preciso e, por isso, buscamos na Ásia Central, pois eles também usam essas mesmas instalações e fazem fronteira conosco, vamos ver se eles podem ajudar", explicou.

Retaliação contra Talibã

De acordo com o Hamdullah Mohib, o Afeganistão vai responder à recente ofensiva do movimento Talibã (grupo terrorista proibido na Rússia e em outros países), que assumiu o controle de diversos distritos no norte do país.

As forças do governo afegão estão planejando um contra-ataque, disse o conselheiro.

"O Talibã usou o vácuo que os americanos e outras tropas internacionais deixaram ao retirar e lançaram uma ofensiva sem aviso prévio. Isso pegou de surpresa as forças de segurança afegãs. Como eu disse, nós esperamos pela paz, e não pela guerra", afirmou.

Contudo, o povo afegão está "determinado" e quer "ser livre", ressaltou.

"Nós queremos ver o Talibã incluído no governo e representado, mas os afegãos não estão prontos para ter o Talibã dominando todo o Afeganistão e ditando como os afegãos devem viver [...] As forças de segurança e defesa nacional do Afeganistão juntamente com o povo estão trabalhando para gerenciar a situação de segurança", adicionou ao comentar a situação no norte do país.

Afeganistão e Turquia

O conselheiro afegão também relatou que o Afeganistão e a Turquia seguem negociando para garantir a segurança do aeroporto de Cabul após a retirada das tropas norte-americanas, já que uma série de assuntos burocráticos deve ser resolvida.

"Estamos trabalhando neste acordo com a Turquia, uma série de questões burocráticas precisa ser resolvida. Mas temos tempo e estamos trabalhando para finalizar esse acordo", afirmou.

Além disso, o conselheiro ressaltou que algumas questões técnicas são necessárias para garantir o funcionamento do aeroporto, como o treinamento dos controladores de tráfego aéreo.

"Por isso, no momento precisamos de um período de transição, para que um dos nossos parceiros da OTAN, neste caso a Turquia, possa cuidar dos aspectos técnicos do aeroporto até que o treinamento esteja completo e possamos entregar isso aos afegãos", concluiu.

Retirada dos EUA

Hamdullah Mohib ressaltou que a retirada dos EUA e da coalizão do Afeganistão é um desafio para toda a região, e que suas consequências serão sentidas não apenas pelos países vizinhos, mas também pela Rússia.

"Os EUA estão reduzindo gradualmente sua presença no Afeganistão, se preparando para uma retirada completa de suas tropas [...] O mais importante é como usaremos esta oportunidade para construir um Afeganistão estável, construir a estabilidade na região. Este é um desafio para o nosso país a nível nacional, mas também é um desafio para toda a região", declarou.

"Se os resultados da retirada das tropas estrangeiras não forem como queremos, como a população afegã quer, isso terá em primeiro lugar consequências para o Afeganistão e sérias implicações de segurança para a Ásia Central e a Rússia", alertou.

No dia 14 de abril, o presidente Joe Biden anunciou que retiraria as tropas norte-americanas do Afeganistão até o dia 11 de setembro deste ano.

A retirada das tropas, que agora se encontra em curso, está acontecendo de maneira mais rápida que a prevista, o que gerou o pedido de aliados europeus aos EUA para que desacelerassem o processo e dessem mais tempo aos aliados da OTAN para também partirem do país, conforme noticiado no dia 8 de maio.(com agência Sputnik Brasil)