Brasileira denuncia asilo em Lisboa: 'Pediram para eu trabalhar com covid-19 e mentir para polícia'

Em 2020, havia 788 asilos ilegais em Portugal, de acordo com o governo

Foto: Reuters / Pedro Nunes
Credit...Foto: Reuters / Pedro Nunes

A mineira Cindy Romão trabalhou como cuidadora na Casa de Repouso São Cristóvão, em Odivelas, na Área Metropolitana de Lisboa, entre abril de 2020 e final de fevereiro deste ano. Em janeiro, sentiu sintomas de covid-19 e testou positivo para a doença. De acordo com ela, todos os outros cinco funcionários também testaram positivo, assim como o casal que é dono do asilo e a maioria dos cerca de 20 idosos residentes.

Apesar disso, Cindy conta que Lurdes Lopes, esposa do dono do lar de idosos, como são conhecidos os asilos em Portugal, pediu a ela que trabalhasse mesmo infectada. Não só isso. De acordo com uma troca de mensagens à qual a agência de notícias Sputnik Brasil teve acesso, Lurdes teria pedido que ela mentisse se a polícia aparecesse no estabelecimento.

"Tenho print dela pedindo para mentir para a polícia caso eles fossem lá, porque estava todo mundo infectado, e a ordem [da polícia] era ela [Lurdes] trabalhar com mais outra funcionária, dia e noite,? e não sair de jeito nenhum de lá. Mas ela e a outra que também estava infectada foram para casa todos os dias", revela Cindy.

O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social foi questionado sobre se a Casa de Repouso São Cristóvão tem alvará para funcionamento, bem como se já houve fiscalização neste lar e se foi aplicada alguma multa. Em nota, a pasta confirmou que o asilo não tem licença e que já existe um processo para fechá-lo.

"O Departamento de Fiscalização do Instituto da Segurança Social abriu um processo de averiguações a esta instituição, que não dispõe de licenciamento. Foi já elaborada sanção acessória de encerramento", lê-se na nota enviada à agência de notícias.

De acordo com os dados do Sistema Nacional de Saúde referentes a 2020, há, em Portugal, 2.526 lares para idosos, nos quais estão institucionalizadas 99.234 pessoas e onde trabalham 60 mil profissionais.

Segundo Cindy, todos fizeram testes para detecção de covid-19 no asilo no dia 18 de janeiro. A brasileira conta que estava no dia da sua folga quando recebeu uma ligação da chefe pressionando-a para voltar ao trabalho mesmo antes de acabar a quarentena de 14 dias. Ela voltou, então, no dia 27.

"Ela exigiu que eu fosse trabalhar com covid-19. Liguei para o Ministério do Trabalho, e a moça falou: 'Não saia de casa, não vá ao trabalho porque você vai estar cometendo crime.' [Quando] eu disse que não [iria], ela [Lurdes] disse que todos os funcionários, inclusive ela, estavam trabalhando com covid-19: 'Não posso contar com você mesmo, Cindy! Vou arrumar outra para colocar no seu lugar.' E desligou na minha cara, muito brava", relata.

Questionada sobre se houve algum tipo de isolamento dos poucos idosos que teriam testado negativo para covid-19, ela respondeu que três foram colocados em um quarto separado. No entanto, um deles acabou infectado mesmo assim. De acordo com Cindy, equipamentos de proteção individual eram escassos e usados de forma inadequada, sem reposição.

"Ela [Lurdes] pediu para usar a mesma roupa de plástico por mais de três dias e ficava brava quando rasgava e a gente pedia mais. Eu acabava cuidando de uma senhora que estava com covid-19 e, com essa mesma roupa, ia cuidar de outras que não estavam. Uma amiga que trabalha em outro lar falou que, a partir do momento em que se entra na ala dos infectados, tira-se a roupa na hora, toma-se um banho e veste-se outra roupa limpa para cuidar das pessoas não infectadas", compara.

Dono do asilo diz tratar-se de calúnias

Após ouvir as acusações de que ela teria orientado Cindy a mentir para a polícia e a trabalhar mesmo infectada, Lurdes desligou o telefone. Já seu marido afirmou tratar-se de calúnias.

"Não vou responder a calúnias, porque são calúnias. As pessoas que fazem essas denúncias têm que provar. Ela tem as provas delas, eu tenho as minhas, os meus argumentos", disse Isauro Lopes, sem, contudo, apresentá-los.

Questionado se sua instituição tem licença para funcionar, ele não respondeu.

"Estou nesse ramo há 22 anos e fui levado à Justiça uma única vez por um funcionário, e o juiz disse que a pessoa deveria estar a trabalhar em vez de inventar histórias", completou antes de desligar.

No site Lares Online, uma plataforma virtual de asilos portugueses, a Casa de Repouso São Cristóvão aparece com uma capacidade para 22 idosos, mas "sem informação sobre licença". Em uma consulta feita por este correspondente em Lisboa, foi informado que a mensalidade para a estadia de um idoso custa € 1.000 (R$ 6.664).

Na descrição do site, é informado que o asilo disponibiliza quartos individuais, duplos e triplos, com uma sala comum e uma área de refeições. O tratamento de roupa, a alimentação e a hidratação são assegurados pelo lar, segundo a plataforma. Cada cama inclui um sistema de chamada, para que o idoso, em caso de dificuldade, seja auxiliado pelas auxiliares geriátricas.

"Esta casa de repouso recebe idosos independentes e com graus diferentes de dependência, desde ligeira a acamados. Todos aqueles que tenham deficiência motora ou visual, ou menos de 65 anos são bem-vindos. No entanto, não são aceitas pessoas com esquizofrenia, com problemas alcoólicos, ou com HIV", lê-se na descrição.

Associação recomenda retirada de idosos infectados de asilos

De acordo com a Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), entidade que intervém em parceira com proprietários "no sentido de moralizar e sensibilizar para a qualidade dos serviços prestados", a instituição não consta da Carta Social, um estudo de análise da dinâmica da Rede de Serviços e Equipamentos Sociais, tutelados pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS).

Um funcionário disse à Sputnik Brasil que Ana Paula Fernandes, secretária-geral da ALI, conhece o dono da Casa de Repouso São Cristóvão e que ele já teve um lar com o mesmo nome em outro endereço.

"Há lares a funcionar muito mal, que não deviam estar abertos. Lisboa não teve uma resposta tão eficaz como outras autarquias, mas, o que se coloca é a responsabilidade de quem está à frente do lar. Assisti a coisas muito graves em lares que visitei em Caneças, mas alguns mudam a morada [endereço]. Pode estar a funcionar de forma ilegal, mas ter número de contribuinte e pagar impostos", explica Ana Paula Fernandes.

Nesta semana, a ALI emitiu um comunicado em que alerta para a urgência da tomada de medidas relativas aos lares de idosos, por já terem conhecimento de residentes infectados em alguns deles. A entidade recomenda a retirada dos infectados pelo fato de o isolamento não ser suficiente e a permanência no asilo ser um risco acrescido, ainda que haja cuidados.

"Como já aconteceu em um lar do norte do país, em que a autoridade de saúde demorou 10 dias a retirar uma utente [paciente] infectada, tendo falecido no dia seguinte, sendo que resultou em mais um utente também já infectado, com pedido de retirada já há dois dias ainda não efectuado, com todo o risco inerente", lê-se no comunicado.

Outra questão urgente abordada pela ALI é a distribuição de material de prevenção aos cuidadores, como máscaras e luvas, porque os lares, embora não sejam estabelecimentos de saúde, são equiparados a tais.

"Quando há casos de covid-19 e a Direção-Geral de Saúde (DGS) fica a par, a polícia controla para saber se as pessoas estão em confinamento ou não", completa Ana Paula Fernandes.(com agência Sputnik Brasil)