Biden promete revide por suposta interferência russa e chama Putin de assassino

Moscou convoca embaixador em Washington para consultas após declaração do presidente americano

Reuters/Tom Brenner
Credit...Reuters/Tom Brenner

Em entrevista ao canal ABC, o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou que Vladimir Putin sofrerá consequências devido aos supostos esforços da Rússia para interferir nas eleições de 2020 e, ao ser questionado se o líder russo é um assassino, assentiu e disse que sim.

"Ele pagará um preço", disse Biden, em referência às ações que teriam sido realizadas por Moscou para influenciar o pleito em favor de Donald Trump, sem detalhar que consequências seriam essas —o democrata respondeu apenas "você saberá em breve". A entrevista foi exibida nesta quarta-feira (17).

As declarações do líder americano, dadas após agências de inteligência dos EUA divulgarem, na terça (16), relatório segundo o qual a Rússia teria tentado ajudar Trump a se reeleger, logo provocaram reações. Pouco depois da divulgação da entrevista, Viatcheslav Volodin, presidente da Câmara baixa do Parlamento russo, disse que "um ataque contra Putin é um ataque contra o nosso país".

"Biden insultou os cidadãos do nosso país com essa declaração", afirmou o parlamentar, número 2 do Kremlin entre 2011 e 2016, em um canal no Telegram. Para além das palavras, a chancelaria russa convocou seu embaixador em Washington, Anatoli Antonov, para consultas, embora a pasta tenha afirmado que o objetivo é evitar a degradação irreversível das relações com os americanos.

Moscou já havia sido acusada de influenciar a eleição americana de 2016, outra vez para favorecer Trump, cujo mandato foi marcado por investigações sobre a questão. Uma apuração de três anos, feita pelo Departamento de Justiça dos EUA, no entanto, isentou a campanha do republicano de ter se aliado à Rússia para vencer o pleito, embora indícios apontassem para envolvimento russo em vazamentos de dados e de conversas sigilosas que ajudaram a minar a campanha da rival de Trump, Hillary Clinton.

Em episódios mais recentes, a inteligência americana passou a investigar a Rússia devido a um ataque cibernético de grande escala a sistemas do governo dos EUA no final de 2020 e ao pagamento de recompensas a membros do grupo extremista Taleban para matar soldados americanos no Afeganistão.

Ainda que tenha atacado o par russo, o atual presidente dos EUA disse haver temas de interesse mútuo nos quais os países podem trabalhar juntos, como ocorreu na renovação do acordo nuclear Novo Start.

"Eu o conheço relativamente bem", disse Biden, "e a parte mais importante ao lidar com líderes estrangeiros é saber quem é o outro cara". De fato, a relação entre os chefes de Estado é antiga. Como vice de Barack Obama, Biden atuou nas tentativas de pacificar a Ucrânia durante crise com a Rússia.

Em 2013, o então presidente Viktor Yanukovich desistiu de um acordo para entrar na União Europeia (UE), o que gerou grandes protestos e, posteriormente, a deposição do próprio líder ucraniano. Ainda assim, a Rússia, contrária à aproximação do vizinho com o bloco europeu, anexou a Crimeia, parte da Ucrânia, e fomentou movimentos separatistas em outras regiões, gerando uma guerra civil.

Biden ofereceu ajuda, sem sucesso, para que os ucranianos suportassem a pressão russa.

Em outro episódio, segundo relato de Biden no livro "Promessa de Pai", ele disse a Putin, em reunião no início de 2015, na Finlândia, acreditar que o líder russo não tem alma, afirmação que voltou a fazer na entrevista exibida nesta quarta-feira. À época da primeira menção, o democrata se reuniu com Putin, então premiê, para tratar de um reposicionamento do sistema de defesa de mísseis na Europa, sobre o qual Putin se mostrou descontente. "Sr. primeiro-ministro, estou olhando nos seus olhos e não creio que tenha uma alma", teria dito Biden. Putin respondeu: "Nós entendemos um ao outro".

Biden recordou parte deste diálogo na entrevista à ABC e foi questionado se vê o presidente russo como um assassino, ao que o líder americano concordou. Ele não especificou se estava se referindo ao envenenamento do opositor russo Alexei Navalni, em agosto, um ato que, segundo os EUA, teria sido cometido pelo Kremlin e que gerou sanções de Washington a sete funcionários do governo russo.

Nos últimos meses, Putin vem apertando o cerco contra a oposição em seu país. Navalni, por exemplo, foi condenado e enviado à uma colônia penal depois de passar cinco meses em tratamento na Alemanha devido ao envenenamento. Em um espectro mais amplo, no último fim de semana a polícia russa prendeu mais de 150 pessoas que participavam de um encontro de partidos de oposição.

Como Biden, Trump também foi perguntado, no início do mandato, sobre o que achava de Putin. Em entrevista à Fox News em fevereiro de 2017, o republicano disse que o respeitava. "Se eu vou me dar bem com ele? Não tenho ideia. É bem possível que não". Em seguida, o entrevistador Bill O’Reilly disse: "Ele [Putin] é um assassino". Trump retrucou: "Há um monte de assassinos. Nós temos um monte de assassinos. Você acha que nosso país é tão inocente?".

Na entrevista desta quarta à ABC, Biden também abordou assuntos domésticos. Frente a uma alta no número de imigrantes que tentam entrar nos EUA sem autorização, o presidente disse aos estrangeiros que "não venham". O democrata afirmou ainda que ampliará a estrutura para receber crianças imigrantes que viajam desacompanhadas e que a prioridade será enviá-las de volta às suas famílias.

O democrata também apontou que a recusa de Trump em ajudar na transição de governo atrapalhou o início de seu mandato, e, por isso, a decisão sobre retirar as tropas americanas do Afeganistão, prevista para ocorrer em 1º de maio, ainda está em análise.

Por fim, defendeu que o governador de Nova York, o democrata Andrew Cuomo, renuncie ao cargo se ficar provado que ele assediou mulheres. Nas últimas semanas, ao menos sete auxiliares de seu governo revelaram queixas sobre o comportamento de Cuomo.(Folhapress)