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Acusado de reprimir violentamente oposição, presidente das Maldivas perde eleições

Jornal do Brasil DENIS KUCK, denis.kuck@jb.com.br

Malé - A beleza: praias, areias brancas, mar cristalino. O caos: repressão, prisões, censura. Com cerca de 340 mil habitantes, aproximadamente duas vezes a população do bairro de Copacabana, as Maldivas vivem seus dias de purgatório. Governada por um presidente acusado de ser um tirano, o pequeno país no Oceano Índico realizou eleições ontem. Contra todas as expectativas, o candidato opositor derrotou o atual chefe de Estado. A esperança da população é de mudança de ares políticos. E de que o arquipélago formado por mil ilhas fique mais próximo ainda do que se pode chamar de paraíso.

Após uma campanha marcada pelos ataques do governo aos adversários e feroz repressão aos dissidentes, tudo levava a crer que o atual mandatário, Abdulla Yameen, ganharia mais um mandato de cinco anos. No entanto, com cerca de 58% dos votos, o líder da coalizão de oposição, Ibrahim Mohamed Solih, foi eleito o novo presidente do país - diferença de aproximadamente 34 mil votos em relação ao rival. Os dois candidatos eram os únicos na disputa. Solih e Yameen votaram na capital Malé, maior cidade do país, pouco após a abertura das zonas eleitorais.

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Em um país de praias paradisícas, no qual o turismo representa uma das principais fontes de renda, a situação política recente é marcada pela repressão à oposição (Pixabay) (Foto: AFP)

“Faço um apelo a Yameen para que respeite a vontade do povo e conduza uma transferência de poder pacífica e sem problemas”, declarou Solih depois da divulgação dos resultados. “A mensagem é alta e clara. O povo quer justiça e estabilidade”, acrescentou. O candidato eleito aproveitou para exigir a libertação imediata de dezenas de presos políticos.

A imagem que as Maldivas evocam ao redor do mundo é de natureza exuberante - o turismo representa um quarto do PIB local. Mas há alguns anos a situação política do país é criticada por organizações de direitos humanos e pela ONU. Na véspera da eleição, a polícia chegou a invadir a sede da campanha do partido opositor em Malé, sob a justificativa de combater “atividades ilegais”.

Os principais nomes da oposição estão detidos ou no exílio, como é o caso do ex-presidente Mohamed Nasheed, que perdeu as eleições em 2013 em circunstâncias polêmicas. Líder dos protestos contra o governo, ele seria candidato agora, mas foi impedido de participar do pleito pela Justiça após ser condenado por corrupção. A ONU denunciou o caso como perseguição política. Após a decisão, a oposição acabou lançando Solih. Sua candidatura, porém, pouco foi apresentada na imprensa local, que temia sofrer represálias por parte do partido dominante.

No início de 2018, a Suprema Corte determinou a anulação da condenação de nove pessoas, entre eles do ex-presidente Nasheed. No entanto, Yameen se opôs à medida, implementou estado de emergência por 45 dias e mandou prender dois juízes da corte, que acabou voltando atrás de sua decisão.

Segundo a Human Rights Watch, o governo das Maldivas recorre a decretos e “leis vagas formuladas para silenciar a dissidência e intimidar e aprisionar os críticos”. Há denúncias de que opositores foram agredidos e até mesmo mortos.

Pequena nas dimensões, na geopolítica internacional as Maldivas colocam gigantes de lados opostos. A vizinha Índia cobra transparência do governo do arquipélago. Já a China, de olho nos negócios, apoia Yameen, investindo grandes quantias na construção de uma ponte ligando Malé ao aeroporto internacional Hulhulé.



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