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Entrevista - Augusto Rocha: Nos escombros das torres, dor que não cicatriza

Dezessete anos após 11 de setembro, português comenta perda do filho em atentado

Jornal do Brasil OMAR RESENDE PERES

Se no Brasil, Argentina e Chile, as ditaduras militares assassinaram milhares de jovens “em defesa da democracia”, nos Estados Unidos, foi “em nome de Deus” que milhares de cidadãos foram assassinados com o sequestro de dois aviões pilotados por terroristas islâmicos, que os jogaram contra as duas torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, em Nova York.

Conheci Augusto Rocha em 1983, quando fui gerente do Banco Nacional, em Nova York. Um simpático e educado português, além de profissional super qualificado. Aprendi muito com ele. Ficamos amigos. Convivi com sua família e com seu filho Tony (que conheci menino), uma das vítimas do atentado terrorista do World Trade Center. Tony era um rapaz sereno e com muita disposição para se tornar um executivo financeiro tal como o pai. E, em sua curta carreira, era motivo de orgulho de toda a família.

Neste último 11 de setembro, resolvi mandar uma mensagem ao Augusto. Todos os anos me lembro dele nesta data e fico imaginando o seu sofrimento. Resolvi fazer essa entrevista. O consultei antes, claro. Ele topou falar pela primeira vez para a imprensa. Neste caso, para um amigo brasileiro.

O português Augusto Rocha, como milhares de outros compatriotas, migrou para os EUA para “fazer a América”. E foi muito bem sucedido em sua carreira bancária, sempre ligada ao Brasil. Rocha inicia sua carreira no início dos anos 70 como operador de câmbio, posição em que permaneceu por mais de sete anos. Em seguida, foi gerente da mesa de operações do Banco Nacional, ambos os cargos nas agências de Nova York. Em 1991 foi designado como gestor principal da agência do Banco Nacional em Nassau, nas Bahamas, e posteriormente no Unibanco, onde encerrou sua carreira.

Criou seus dois filhos e era um homem realizado. Mas até o dia 11 de setembro de 2001, data em que, de Nassau, tomou conhecimento de que dois aviões haviam se chocado contra as torres gêmeas de Manhatan, o que mudaria , para sempre, a sua vida: no 105º andar da Torre Norte, estava seu filho, Tony Rocha, 34 anos, vice- presidente da maior corretora de valores dos Estados Unidos, a Cantor Fitzgerald.

Augusto Rocha relata pela primeira vez para a imprensa internacional, com exclusividade para o JORNAL DO BRASIL, detalhes da maior perda e dor de sua vida e do maior trauma da história dos Estados Unidos.

 

Macaque in the trees
Tony, que morreu no atentado contra as Torres Gêmeas nos EUA, com seus filhos (Foto: Acervo pessoal)

 

Onde você recebeu a notícia do ataque às torres?

Naquela manhã já estava no meu escritório, lendo até uma mensagem que Tony me deixou no terminal da Bloomberg, dizendo “Bom dia catalino (assim me chamava)” e me dando algumas dicas de como, no mercado, os títulos de dívida brasileiros estavam sendo cotados. A primeira mensagem que recebi nessa fatídica manhã foi através do terminal da Bloomberg e só depois fui ligar a televisão. Sabia que Tony estava na torre norte, no 105º andar, onde era o escritório da empresa onde ele trabalhava.

Onde trabalhava seu filho? O que ele fazia?

O Tony formou-se em economia no Manhattan College, com mestrado em finanças. Logo que terminou os estudos foi trabalhar para um broker de “emerging markets” (mercados emergentes). Em 2000, foi convidado pela Cantor Fitz-gerald para assumir a chefia do Emerging Markets. Foi vice-presidente para a América Latina. A Cantor tinha grandes objetivos neste mercado e, em agosto de 2001, ele chegou a ir ao Brasil e, sob minha recomendação, visitou em Brasília o Banco Central, onde tinha muito amigos. Teve muito sucesso. A Cantor era a maior corretora dos EUA e tinha exclusividade de negociar alguns instrumentos financeiros do Tesouro americano. Com o crescimento dos emerging markets, a empresa ganhou muitas posições e tinha investimentos em títulos de emissão brasileira.

Onde você estava quando ocorreu o atentado? Conseguiu chegar no local?

Não podia. Estava em Nassau, onde trabalhava, e todos os aeroportos e portos marítimos estiveram fechados por uns quatro dias. Quatro dias de angústia total, pois a minha esposa estava em Nova York. Só no final de cinco dias consegui entrar na Flórida, pelo mar e, em seguida, ir de avião para Nova York.

Macaque in the trees
Português Augusto Rocha (ao centro), ao lado de Tony (esq.) e de seu outro filho (Foto: Acervo pessoal)
Você conseguiu falar com ele quando tomou conhecimento do atentado?

Não, só a esposa dele.

Poderia nos relatar o que eles disseram?

O diálogo pelo celular foi curto: “SAIA DAÍ!, disse a esposa. E ele respondeu: “Love you all” (amo todos vocês). E perderam o contato.

O corpo de teu filho foi encontrado?

O corpo de meu filho foi um dos poucos que foi identificado no hospital. Essa identificação só foi possível graças a um chefe da polícia da autoridade portuária de Nova York, cunhado de sua esposa.

O governo americano, de alguma forma, ajudou a família?

Sim. Houve ajuda financeira diretamente para a esposa e seus dois filhos.

Qual o sentimento quando chega o dia 11 de setembro?

Em todos esses 17 anos, só um sentimento: muita dor. Ele não merecia perder a vida assim.



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