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Pag. 26 - Acusações entre governo e prefeitura atrasam solução

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Para a oposição, as medidas do governo têm sido ineficazes.

No início deste mês, a polícia tentou expulsar quase 200 posseiros do Parque Indo-Americano, o segundo maior da cidade, não muito distante de Villa Lugano. Segundo relatos, no confronto, duas pessoas foram assassinadas pela polícia, embora a mesma tenha alegado que usou balas de borracha.

De lá para cá, o número de invasores subiu para 5 mil. Para autoridades do governo, a maioria deles é composta por imigrantes bolivianos.

– Este é um país construído por estrangeiros. Meus avós eram estrangeiros – conta Luis Álvarez, dono de um pequeno mercado a um quarteirão do campo de futebol em Villa Lugano. – Mas estas pessoas chegam aqui e logo ganham todos os direitos, e não têm obrigações.

Um juiz convocou novamente a polícia no dia 9 de dezembro e ordenou que o governo a fornecesse comida, água e banheiros químicos aos posseiros. Segundo relatos, na noite seguinte, um protesto de moradores desencadeou mais um conflito com os posseiros, e teve como resultado um sem-teto morto.

Os responsáveis pelo protesto alegaram que o local tinha sido invadida por torcedores de futebol violentos que provocaram a briga.

Especialistas acreditam que a falta de ação da presidente é resultado da sua própria posição esquerdista. Cristina manteve, ao longo do mandato, iniciativas para a imigração e políticas generosas de bem-estar social.

– Isso é bastante preocupante, já que, antes, Néstor Kirchner mantinha tudo sobre controle – comenta Carlos Germano, analista político. – Agora vemos que o governo não é mais capaz disso.

Em contrapartida, Nilda Garré, ministra da Segurança Nacional da Argentina, afirmou na quinta-feira passada que os líderes dos sem-teto no campo de futebol estão agindo de acordo com as ordens do prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, com o objetivo de “infundir a ideia de uma falta de eficácia do governo nacional”.

O prefeito negou as acusações e acrescentou que Cristina se recusa a cumprir a ordem da Justiça de despejo dos sem-teto. Para Macri, a falta de ação do Executivo encoraja posseiros de outras localidades. – Por que ela não pode aplicar a lei? – perguntou em uma entrevista na semana passada.

– Eu gostaria de pedir que ela se colocasse no lugar daqueles que vivem na comunidade. Esta situação é um absurdo.

População é quem mais sofre Luis Álvarez teme o retorno do caos do ano de 2001, quando saqueadores roubaram e destruíram tudo no seu antigo estabelecimento, dez vezes maior do que o atual.

– As pessoas não aguentam mais isso – desabafa. – O país inteiro clama por justiça e segurança, mas o governo é surdo para as palavras do povo.

Os sem-teto alegam que a inflação crescente fez da moradia algo insustentável. Laura Fornos, 28, que habita ilegalmente um terreno público em Villa Soldati com o filho mais novo e a mãe, diz que não podia mais pagar o aluguel mensal de 150 dólares por um apartamento de um único aposento com um banheiro comunitário.

– Não queremos o terreno; queremos uma solução, um barraco, uma casa – protesta.

Tradução: Maíra Mello The New York Times.