'Tabloide': Mais estranho que a ficção. Bom demais para ser verdade

Joyce McKinney ficou famosa nos anos 70 quando sequestrou seu ex-namorado

O premiado documentarista americano Errol Morris combinou as duas máximas do jornalismo de escândalos para contar a curiosa série de eventos envolvendo uma ex-miss de QI 168, um missionário mórmon canadense e a imprensa sensacionalista britânica. 

Morris não faz nenhuma investigação profunda em busca da "mais pura" verdade: apresenta os fatos e as diferentes narrativas feitas a partir deles. Sair do cinema com mais perguntas que respostas não é caso de internação. Morris sempre se mostrou interessado em como a verdade, sua principal matéria prima desde Gates of heaven (1978) até o mais recente, Procedimento operacional padrão (2008), pode ser mediada, distorcida, obscurecida ou apagada.

Quando Joyce McKinney conheceu Kirk Anderson, em 1977, foi "como nos filmes", diz ela no simpático depoimento que concede ao diretor. Bonita e inteligente, a moça era tudo o que a doutrina religiosa do rapaz não queria por perto; ele prontamente foi enviado para a Inglaterra para trabalhar como missionário. 

Joyce foi atrás e, com a ajuda de um cúmplice, resgatou-o da Igreja de Jesus Cristo Dos Santos dos Últimos Dias, levando-o para um chalé no interior do país. Uma vez nesse cenário idílico, Joyce e Kirk fizeram amor por três dias seguidos, falaram de casamento, filhos e fizeram planos para o futuro. 

Pelo menos é o que diz Joyce.       

A versão de Kirk é um pouco diferente. Ele diz que foi sequestrado, levado para um casebre sob a mira de uma arma, amarrado à cama e forçado a fazer sexo com sua captora por três dias ininterruptos. 

Uma terceira versão, de um ex-missionário mórmon, sugere uma espécie de híbrido: Kirk fugiu com Joyce e depois mudou toda a história para limpar a própria barra com seus 'irmãos em Cristo'. 

A óbvia pergunta - "Quem está dizendo a verdade?" - tem como resposta apenas uma sugestão. Segundo Morris, ela pode ser, ao mesmo tempo um produto dos interesses midiáticos (logo de interesses financeiros) e fruto de um amor intenso, bandido e inconseqüente. Em última análise, Tabloide não é sobre a verdade, mas sobre o fascínio causado por múltiplas, e, às vezes, surreais versões.

Cotação: **** (Excelente)