Filme 'Mundialito' investiga se derrota do Brasil no Uruguai foi política

A produção Mundialito, exibida na Mostra Panorâmica do 39º Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul, resgata, sob a perspectiva uruguaia, um triunfo futebolístico ocorrido em 1980, sobre o Brasil, mas que foi "esquecido" por aquele povo que enfrentava o regime militar.

A conquista da Copa de Ouro, mais conhecida como Mundialito, ocorreu nos mesmos moldes vitória uruguaia sobre o Brasil na Copa de 1950, mas em vez do Maracanã o palco foi o estádio Centenário. No entanto, o orgulho se apagou em meio a questões políticas que, segundo o filme, podem ter sido o propósito do campeonato em primeiro lugar.

A Copa de Ouro foi um torneio organizado em Montevidéu entre países campeões do mundo e contou com a participação de Brasil, Uruguai, Itália, Alemanha e Holanda.

Na final, Brasil e Uruguai repetiram o placar de 2 a 1 que deu aos uruguaios o título mundial de 1950. O torneio aconteceu um mês depois de um plebiscito organizado pelos militares sobre mudanças na constituição no qual os uruguaios rejeitaram a proposta militar, mas segundo alguns dos personagens do documentário, o evento criado pela Associação Uruguaia de Futebol, na época dirigida por um militar, com o apoio da Fifa, foi usado como propaganda governamental para conquistar a opinião pública.

Para investigar porque seus compatriotas não consideravam o Mundialito como mais uma das glórias da Celeste - como é conhecida a seleção uruguaia - o diretor Sebastiã Berdnarik reuniu imagens históricas e realizou uma série de entrevistas com atletas, jornalistas, militares, cartolas e empresários para entender se o torneiro realmente teve a conotação política.

"A ideia saiu do pouco que se falava sobre esse evento. Era algo que tinha ficado para a minha geração como uma recordação nebulosa (...) me interessava saber o motivo, por que nós, uruguaios, sempre comemoramos e festejamos campeonatos como o de 1930 e o de 1950, mas o de 1980, que também é importante, não era comemorado", disse ao logo após a exibição do filme no Festival de Gramado.

Segundo o diretor, ele teve o cuidado de resgatar a história da forma mais imparcial possível, deixando para o público julgar, com base nos diferentes relatos dos personagens, se o Mundialito foi, ou não, um torneio de futebol político.

Uma curiosidade foi a forma de financiar a competição, que veio da iniciativa privada, mas incluiu a ajuda de investidores ilustres, como o atual Primeiro Ministro da Itália, Silvio Berlusconi, que na época ensaiava os primeiros passos de seu império de mídia italiana.

"Durante a investigação, nos demos conta que a relação com a ditadura era muito grande, inclusive com a questão do plebiscito. Mas o que me interessava era o leque de opiniões sobre essas memórias. Muitos lembravam como algo péssimo e outros como uma catarse", disse.

O filme, que é um coprodução entre Brasil e Uruguai orçada em US$ 300 mil, um valor alto para as produções uruguaias, e deve se exibida em telas brasileiras no último trimestre deste ano.