Ex-BBB muda história da canoagem e é campeão mundial em 8 meses

Um ano após o acidente que paralisou seu corpo da cintura para baixo, o ex-participante doBig Brother Brasil  Fernando Fernandes conquistou o título mundial de canoagem paraolímpica. Em julho de 2009, o modelo recebia a notícia da grave lesão e 12 meses mais tarde, na Polônia, estava representando o Brasil na competição que reunia os melhores do mundo na modalidade, subindo ao lugar mais alto do pódio apenas oito meses depois do início dos treinos.

No dia 20 de agosto de 2010, Fernando foi campeão mundial na prova K1 A 200 m (categoria específica para a lesão de Fernando. Além dessa categoria, existem outras duas: LA e LTA) com o tempo de 56s151. Mas de agosto do ano passado para cá, o atleta já melhorou muito seu tempo. Hoje em dia, ele consegue completar os 200 m em 45s, apenas 10s a mais que os atletas olímpicos. A meta agora é diminuir ainda mais essa diferença para, quem sabe, 7s.

A evolução meteórica fez com que Fernando se tornasse referência no esporte, sendo inclusive, consultado por diversos países europeus para explicar como conquistou tanto sucesso em sua curta carreira de canoísta.

Mas sua contribuição para o esporte não parou por aí. Antes do título mundial de Fernando, a canoagem ainda não era um esporte paraolímpico, mas a conquista ganhou grande proporção, por se tratar de um modelo internacional, ex-participante de um reality show de sucesso e, principalmente pela rapidez em sua recuperação. Tudo isso ajudou a convencer os Comitês Olímpico e Paraolímpico a integrar a modalidade na Olimpíada.

Além disso, Fernando, ao lado de seu técnico Paulo Barbosa, o Paulinho, desenvolveu um barco capaz de navegar ainda mais rápido que os atuais e que hoje é o principal responsável por classificar atletas às grandes competições de canoagem. O barco foi feito em Portugal e atraiu a grande imprensa local, que ficou impressionada com o desempenho de Fernando e sua criação nas águas europeias.

Em entrevista exclusiva ao  Terra , Fernando fala sobre os planos na canoagem, o amor pelo esporte e a recuperação do grave acidente sofrido no dia 4 de julho de 2009, quando perdeu o controle de seu carro na Avenida Indianápolis, na zona sul de São Paulo. Confira na íntegra:

Terra: O que te motivou a se dedicar ao esporte depois do acidente?
Fernando Fernandes: Na verdade não teve antes e depois da lesão em relação ao esporte. O esporte sempre foi significante na minha vida, sempre foi meu dia a dia. Fiz faculdade de educação física, joguei futebol profissional, lutei boxe por 12 anos e acho que o que me fez tão bem depois da lesão e também antes foi o esporte. Só procurei uma forma de fazer o esporte adaptado à minha lesão. Sabia que existia isso, mas não sabia até onde poderia ir. Comecei a procurar essas modalidades e no centro de reabilitação acabei conhecendo várias e uma dessas foi a canoagem.

Terra: Mas por que escolheu a canoagem?
Fernando Fernandes: A canoagem que me escolheu. Não sei te explicar. A hora que sentei no caiaque e eu não sei o que aconteceu comigo. Foi uma mistura de liberdade com capacidade me ver em cima da água, podendo remar. Olhei para o professor que estava ao lado e ele, sem lesão nenhuma. Nós estávamos remando igual. Me deu essa sensação muito forte de liberdade. Isso que me alimentou, que me deu muito prazer. Cheguei a fazer outros esportes, fiz o remo adaptado, corri a São Silvestre com cinco meses de lesão, mas não me senti tão bem como quando me sentei no caiaque. Aquilo me alimentou e ainda me alimenta a cada dia. Quero o máximo que o esporte pode dar.

Terra: Como a canoagem ajuda na sua reabilitação?
Fernando Fernandes: A ajuda é total, porque como eu perdi a sensibilidade da cintura para baixo, o centro de gravidade mudou. Agora é só tronco e abdome. O movimento da canoagem é baseado no giro de tronco então esse giro me coloca em instabilidade sempre e, de alguma forma, tenho que compensar isso, fortalecendo os músculos abdominais e a própria sensibilidade, para ter a sensação de saber o meu eixo. Minha perna fica em hiperextensão, mas tudo que eu tiver para baixo da minha lesão eu tenho que estar contraindo, ou seja, vou sempre estar estimulando esses músculos. Quando fui para Miami, não faz muito tempo, o médico ficou surpreso. Em um ano e meio de lesão ele disse que eu estou com uma ótima condição física por causa da canoagem.

Terra: Você teve participação na decisão de tornar a canoagem um esporte paraolímpico?
Fernando Fernandes: Foi uma coisa muito louca. Eu estava esperando para fazer uma campanha mundial como modelo e 15 dias antes de lançar essa campanha eu me lesionei e aí o mundo inteiro da moda ficou sabendo que o cara da Dolce e Gabanna havia se lesionado. Comecei o processo de reabilitação e depois de um ano do acidente estava sendo campeão mundial. Tenho certeza que tomou uma proporção enorme e colaborou de alguma forma. Uma pessoa que tinha uma imagem voltada para moda voltou para o esporte e isso somou de alguma maneira. Tenho certeza que ajudou. As coisas foram acontecendo e, de repente, se tornou paraolímpica e pegou esse ciclo da minha vida. Não tem muita explicação. No meio de tanta coisa ruim uma coisa boa aconteceu.

Terra: Como é a classificação para as Olimpíadas de 2016?
Fernando Fernandes: Isso vai ser decidido mais próximo do evento. Na minha categoria fazemos finais direto por falta de competidores, porque é muito difícil ficar sentado no caiaque. Primeiro você tem que sentar no caiaque, aprender a remar em um barco largo, depois vai para um mais estreito, para ganhar equilíbrio. É um processo lento, mas tenho certeza que em 2015 terão outros países. Tem gente da Hungria me procurando para saber como é esse processo de adaptação. Mas a classificação é simples, tem as etapas de Copa do Mundo e o Mundial. Você vai se classificando e, de acordo com as vitórias, você conquista posições. Diferente de outros esportes na canoagem não existe um índice porque cada prova tem uma condição climática, como profundidade, densidade da água e velocidade do vento.

Terra: Como é a rotina de treinos?
Fernando Fernandes: Treino de segunda a sábado. Pela manhã vou para água. Fazemos treinos de acordo com as competições. É um período mais curto de treinos, porém muito mais intenso, porque são provas de 200 metros. Em torno de uma hora e meia, duas horas por dia mais ou menos. Além disso, quatro vezes por semana faço musculação. Vou para academia e faço treino de força com carga máxima, com peso, muita força e repetição em mais ou menos uma hora.

Terra: E como está a preparação para as próximas competições?
Fernando Fernandes: A preparação está focada em agosto, no Mundial. Não sei como estarei em 2016. Tenho Sul-Americano no Rio de Janeiro neste domingo e em agosto temos o mundial. Vamos fazer ano a ano, competição por competição para que tudo dê certo.

Terra: Você sempre foi um bom jogador de futebol e chegou a participar da Seleção Brasileira de artistas, sendo, inclusive, campeão ao lado de atores como Marcos Palmeira. Como eram os jogos com esse time?
Fernando Fernandes: Foi a maior experiência cultural que tive na minha vida. Fomos para Rússia duas vezes, Argentina, etc. Eram 16 países e cada andar do hotel hospedava um país. Você tinha que levar um número musical e quando descia no hall parecia um show de talentos, porque tinha Gipsy Kings tocando com os ingleses nos vocais, com Max Vianna no piano, era uma mistura fantástica. Parava e pensava onde estava. Era muita diversão. É uma galera muito importante na minha adaptação, que sempre liga, vem me visitar. Existem várias histórias legais daquela época. Chegamos à Rússia para comer e não sabíamos o que era que tinha no prato. Tinha um arroz com um grão esquisito, uma carne super estranha e tínhamos que ficar 15 dias com aquilo. Aí tivemos que procurar um McDonalds. Chegamos no McDonalds e não sabíamos pedir o número. Tínhamos que apontar para o lanche porque eles não falam inglês.

Terra: Em uma entrevista sua logo após o acidente, você disse que teria que conviver com uma palavra que não estava acostumado e nunca foi seu forte: a paciência. Aprendeu a conviver com ela?
Fernando Fernandes: Aprendi muito a conviver com isso. A gente vive em um mundo onde a cobrança é muito grande, é tudo muito acelerado, as informações chegam demais e eu nunca fui paciente. E de repente entrei em uma outra onda. Passei a fazer o meu ritmo, porque aquele era um ritmo que nunca foi o meu. Estava vivendo uma vida que não queria ter, mas os acasos da vida me levaram para aquilo. Sempre foi ótimo viajar, trabalhar como modelo, mas meu barato sempre foi praticar esporte, porque tinha necessidade disso. Minha vida não era o que eu queria e por incrível que pareça, depois de passar por uma dificuldade muito grande, de ver a morte de perto, você vai e volta a suprir uma necessidade, uma frustração de não ter sido um atleta profissional. Mas hoje vivo isso. Hoje tenho muito mais paz. Quando vim para cá, viver no meio do nada, com chuva, sem chuva, com sol, sem sol, está tudo ótimo. Acordo cedo todo dia, a energia do esporte é muito positiva. É a competição positiva. Isso me faz muito mais bem do que a vida que eu levava