Times da Copa SP dependem das famílias para ter torcida

SÃO PAULO - Não são famosos os jogadores de Desportivo Brasil e Pão de Açúcar, clubes que disputavam um lugar entre os semifinalistas da Copa São Paulo, quinta-feira, no Estádio Comendador Souza. Mesmo assim, suas torcidas chamam todos os jovens atletas - ou quase todos - pelo nome. Nas arquibancadas durante o confronto, a gritaria de mães, tias, irmãs, primas e namoradas, principalmente, chega a doer os ouvidos de quem está por perto.

Desportivo Brasil e Pão de Açúcar, juntos, têm pouco mais de 10 anos de vida e ainda engatinham na tentativa de criar algum tipo de torcida. O primeiro foi fundado em janeiro de 2005, o segundo em maio de 2004. Para jogar com apoio, só mesmo tendo o incentivo das famílias de jogadores e até dos funcionários. Parentes de uma fisioterapeuta do PAEC, por exemplo, gritavam alucinadamente durante o confronto.

Na disputa por vaga às semifinais, o Desportivo Brasil, clube da Traffic, avançou ao vencer o Pão de Açúcar por 4 a 1. Enquanto isso, entre os considerados grandes do Brasil, só o Flamengo permanece na luta pelo título do principal torneio de base. Com seus investimentos, o Desportivo envia uma mensagem clara para os grandes: não basta só tradição para vencer no futebol de hoje. Sem trabalho sério e organizado, as coisas não acontecem. E se o problema é torcida, os dois dão seu jeitinho.

 

Júnior tem parabéns pra você e torcida organizada

Desde criança, Júnior é corintiano roxo, mas aos 18 anos já aprendeu que no futebol esse tipo de sentimento não entra em campo. No primeiro mata-mata do Desportivo Brasil na Copa São Paulo, foi o carrasco do Corinthians e, de quebra, o orgulho da mãe, dona Eunice. Marcou o gol da vitória e, a cada partida em que seu time vai avançando, a torcida organizada aumenta.

Para enfrentar o Pão de Açúcar, Júnior, que faz aniversário no dia do jogo, arrastou ao estádio 21 familiares, quase todos residentes em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Eunice, claro, é uma mãe coruja: "nunca preciso dar conselhos sobre o que ele faz em campo. Ele sempre faz tudo direitinho", conta, enquanto seu Orlando, o pai, dá risada. "O ídolo dele é o Cristiano Ronaldo", acrescenta. Ele garante que o filho, que tem um empresário chamado Fred, já recebeu uma proposta do Flamengo.

Os familiares de Júnior estão espalhados pelo estádio. Dona Eunice, Orlando e alguns tios ficam no degrau mais alto das arquibancadas. Lá embaixo estão a namorada Taimara, a irmã Monica e as primas Clediane e Sabrina. Substituído nos instantes finais do jogo, Júnior, que já sentia o sabor da vitória, ganha um presente da família. A irmã e as primas puxam um "parabéns pra você", acompanhado por praticamente todas as pessoas que apoiavam o Desportivo Brasil.

A torcida da família no estádio não é artigo de luxo para Júnior. O atacante reserva Luís Felipe, o lateral esquerdo Diego e o volante Ewerthon, por exemplo, também são nomes constantemente gritados durante a partida. O sentido de unidade entre as mães de jogadores aparece quando Cleiton, o goleiro do Pão de Açúcar, tem o nome gritado por sua torcida. Do outro lado, a torcida do Desportivo apoia Augusto, seu camisa 1.

 

Cleiton leva quatro, mas a mãe não desanima

A torcida do Pão de Açúcar, que já está na Série A-2 do Campeonato Paulista profissional, também é formada por familiares de atletas em sua maioria. Alguns deles se mobilizaram e levaram instrumentos para fazer um batuque no estádio. Juntos, adaptam gritos de torcidas dos clubes grandes para seu time.

Eles copiam o Palmeiras ("Olê, olê: eu canto, eu sou PAEC até morrer, olê, olê"), o Corinthians ("Poropopó, popó, popó. PAEC veio pra vencer. PAEC veio pra vencer. PAEC veio pra vencer. E o Desportivo se..."), o Santos ("O Pão é o time da virada. O Pão é o time do amor. Lelelelelele") e o São Paulo (P.. que p... é o melhor goleiro do Brasil, Cleiton!).

E é justamente do goleiro Cleiton uma grande parte da barulhenta torcida do Pão de Açúcar. Liderados por dona Lia, a mãe do camisa 1, 16 parentes e amigos viajaram cerca de 30km de Caieras até São Paulo. Achou a distância curta? Poucos dias antes eles já tinham percorrido quase 150km até Jaguariúna. E assim foi nos seis jogos do PAEC na Copa São Paulo.

Palmeirense e fã de Marcos, Cleiton voltou para casa com quatro gols na conta, embora fazendo boas defesas e não falhando em nenhum lance. Sorridente até durante a derrota do Pão de Açúcar, dona Lia promete cuidar do pupilo: "Estou indo esperá-lo na porta do ônibus para dar um abraço. Ele não precisa de muito apoio, é como a mãe. Levanta a cabeça e vai em frente", conta orgulhosa da participação do PAEC no torneio. Como tem 17 anos, o goleiro pode ainda jogar em 2012. "Vai ser a terceira dele como titular. Não é para qualquer um", acrescenta a mãe coruja.