Papo de irmão

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Por PEDRO RODRIGUES

O basquete brasileiro já passou por muita coisa que o futebol nacional passa hoje

Rapaz, que surpresa! Pode entrar! Não repare nas instalações, por favor. Só agora finalizamos a reforma. Foi complicado mesmo. Isso tudo veio abaixo e tivemos que reconstruir aos poucos. Ainda não está como quero, mas um dia chegaremos lá.

Meu amigo, não fique triste. Se me permitir, posso contar o que passei e o que ainda estou passando. Talvez isso ajude você a se reencontrar. Primeiro, devo dizer que entendo a sua dor, porque já passei por grande parte disso. Fomos campeões mundiais quase juntos: você em 1958, eu em 1959 — e ainda tive a sorte de conquistar o bicampeonato dentro de casa, em 1963. Como esquecer Wlamir Marques, Amaury Pasos, Ubiratan Pereira Maciel, Rosa Branca, Mosquito, entre outros? Assim como você, estive presente em todos os Mundiais, mas, infelizmente, nunca mais subi ao lugar mais alto do pódio. Foi muito bonito ver você reverenciando aqueles que ajudaram a construir a sua história. Quando essa fase passar, não deixe de manter essa reverência.

Falando em reverência, vi que você está vivendo a experiência do seu primeiro técnico estrangeiro. Também passei por essa fase. Devo dizer que fui ainda mais ousado: entreguei a joia da coroa ao técnico do nosso maior rival. Se isso não resultou nas conquistas que imaginávamos, ao menos contribuiu para o surgimento de uma excelente geração de técnicos brasileiros. Essa é a chave: aproveitar o melhor que o estrangeiro pode oferecer e transformar esse conhecimento em desenvolvimento por aqui.

Confesso que me causa estranheza o vaivém de técnicos estrangeiros no seu principal campeonato, sem que exista uma renovação consistente. Esse ponto é fundamental. Daqui a 10 ou 15 anos, você perceberá a diferença.

Falando em campeonato: se não fosse o meu torneio nacional, organizado por uma liga, não sei se estaria aqui. Ele nasceu da união dos clubes — frágil, é verdade, mas ainda assim uma união. Veja como, quando se pensa no coletivo em vez do próprio umbigo, as coisas começam a andar. É no campeonato nacional que surgem rivalidades, ídolos e novos torcedores. Cuide muito bem disso.

Apesar de reconhecer o seu domínio, não ignore o poder de sedução das competições internacionais. Afinal, para um jovem, é muito mais fácil assistir à Premier League ou à Champions League do conforto de casa do que enfrentar trânsito, transporte público e um ingresso caro para acompanhar uma partida ao vivo. A conveniência é sua maior adversária. Reforce a importância da presença e, principalmente, da proximidade com o torcedor. Valorize essa proximidade. Não transforme sua seleção em um grupo de ilustres desconhecidos. Jogue por aqui com preços populares. Encha os estádios de crianças, famílias e esperança.

A sombra contra a qual luto, a NBA, é gigantesca, mas sempre faço questão de lembrar que não somos apenas consumidores do esporte. Somos produtores. E, no seu caso, meu irmão, o melhor produtor de talentos do mundo.

Somos um só time, e fico feliz demais em ver que todos torceram juntos. Lembre-se, meu irmão: você leva o nosso jeito alegre de viver, o nosso coração e a nossa paixão. Eu sou o Basquete Brasileiro, grande em altura e em história. Você, Futebol Brasileiro, carrega um país inteiro nas costas.

Essa fase vai passar. Espero que minhas experiências possam ajudá-lo.

Agora, puxe uma cerveja e vamos secar os hermanos.