Entrevista com Rodrigo Lorio, da Payback

Por PEDRO RODRIGUES

Rodrigo Lorio: cria do Leblon fomenta a cultura do basquete

Agosto é um mês meio parado no calendário do basquete. A NBA e o NBB estão curtindo suas merecidas férias e o fluxo de notícias cai um pouco. Se tem uma quadra que o basquete não para é no basquete de rua. Aqui no Rio de Janeiro, umas das melhores partidas do basquete de rua você encontra no Leblon. Conversei essa semana com Rodrigo Lorio, da Payback, empresa responsável pela “pelada”, sobre a empresa e seus princípios.


NAS QUADRAS - Vamos começar exatamente do zero para quem ainda não conhece o trabalho de vocês. Explica, por favor, o que é a Payback?

RODRIGO LORIO - A Payback é uma plataforma de fomento da cultura do basquete. Eu sou o Rodrigo Lorio, um dos fundadores e idealizadores junto com o meu irmão, Daniel [nota: Daniel Lorio, o Danielzinho, jogou no Flamengo em 2014 e chegou a ser campeão Mundial pelo clube]. Jogamos basquete a vida inteira, e quando paramos de jogar queríamos estar próximos desse jogo que nos acompanhou a vida inteira. Então, pensamos de que forma poderíamos continuar próximos. Em 2017, criamos o primeiro campeonato de um contra um. Foi o pontapé inicial. Inclusive, o nome Payback vem desse conceito do um contra um, porque o basquete, embora seja um jogo coletivo, ele tem o lance dos match-ups [tradução livre: embates ou confronto].

O que é o Payback no basquete? Eu vou para cima de você e eu faço uma cesta linda. Na rua, o que vai ser normal? A galera do time vai te dar a boa hora e vai falar: devolve esse lance. Isso é o Payback, na essência. E por isso o nosso jogo é tudo o que vai e volta. Aplicamos essa filosofia na quadra e na empresa. Reparamos que quando começamos a organizar esses campeonatos de um contra um, vimos que o basquete era muito mais que um jogo. O basquete transcende a quadra. O basquete é um esporte totalmente comportamental. Poucos esportes são assim. Existe uma cultura, um jeito de se vestir, um estilo de música e até mesmo um estilo de cabelo. Então, é um universo de possibilidades que existe fora da modalidade. Esse conceito do tudo que vai e volta do Payback, acabou que para a gente expandiu além da quadra, assim como o basquete virou um estilo de vida. Então, tudo vai e volta não só na quadra.

Acredito que a nossa missão é representar a cultura do basquete, e não representar a cultura do basquete no que dIZ respeito a só o esporte, mas sim nas lições que ele traz para a nossa vida, que vão muito além do jogo.


Tem muita coisa para a gente destrinchar: vamos ao local primeiro. A gente está gravando na praça Claudio Coutinho, aqui no Leblon, adotada por vocês como quadra. Como foi esse processo?

Eu mesmo sou nascido no Leblon e criado em Ipanema. O nosso primeiro campeonato foi aqui no Leblon. Consequentemente, essa foi a quadra que a gente escolheu para ser o nosso berço. A partir do primeiro campeonato, revitalizamos essa quadra, e hoje somos responsáveis por ela frente ao poder público. Organizamos nossas peladas semanais e realizamos eventos aqui também. Nossas responsabilidades ficam expostas em um banner, assim que você chega na quadra. É o nosso templo, o nosso berço.


Vamos falar destas partidas, as populares “peladas” que vocês conseguem proporcionar toda segunda-feira a partir das 18h30. São quase três, quatro horas de bons times jogando. Como vocês conseguem angariar essas pessoas? É através de redes sociais, da sua rede de contatos?

A gente jogou a vida inteira, por isso conhecemos comunidade inteira do basquete. Quando chamamos o pessoal para ver, chamamos também as pessoas que jogam [Nota: é comum encontrar nestas partidas jogadores que já disputaram campeonatos como o NBBs].

 

E nas redes sociais. Como funciona o trabalho da Payback?

Começamos muito nessa frente de agir, de estar na rua, de ocupar os espaços, de revitalizar as quadras, de reciclar cestas de basquete. Madeira estragada nas feiras servia para fazer cestas que a criançada pintava. Trabalhamos ajudando a molecada de projetos sociais a ir para o exterior, além de ativações e consultorias em eventos e festas sobre basquete. Ou seja, era um trabalho muito presencial, com pouca presença digital. Em 2020, com a pandemia, tivemos que abraçar o digital, e foi tudo muito natural. Começamos a criar linhas editoriais para nossas plataformas, lives com convidados, e trouxemos parte do presencial para o online. Hoje, nossas redes são maduras em consequência dos nossos movimentos no offline. [nota: São ativos mesmo. Se você entrar nas redes da Payback, tem até vídeos de melhores momentos das partidas].


Além de divulgar a marca e as partidas, o que mais vocês realizaram, seja via redes sociais ou através de projetos presenciais?

Na Lagoa, pegamos uma programação de uma das quadras do Parque das Catacumbas, e lá fizemos treinos semanais de basquete para iniciantes e para pessoas mais avançadas. E teve uma história muito linda de uma família que botou um dos filhos para fazer as aulas, e depois de uns dois ou três meses, estava a família inteira fazendo as aulas. Era o pai, a mãe, a irmãzinha e o filho. Todo mundo apaixonado pelo basquete, todos iam fazer os treinos.

Então, essa é uma das milhares de histórias que a gente já tem. O ano passado foi um ano superimportante, porque foi o primeiro ano que conseguimos fazer um projeto grande chamado "Além do Jogo", que é justamente para ilustrar e concretizar todo esse conceito do basquete e transcender a modalidade.

Esse projeto conta com duas marcas muito grandes, a Centauro, à qual a gente é supergrato, e a Nike, uma marca superdifícil de entrar como patrocínio, que patrocinou o nosso movimento, e mais o apoio da Tintas Coral, que forneceu as tintas para a revitalização das quadras.

Foram quatro quadras contempladas: a da Cruzada São Sebastião, a da praça Claudio Coutinho, do Fallet e do Fogueteiro. Um trabalho superlindo de contar as histórias dos projetos, de empoderar as pessoas que fazem esses projetos acontecerem, e de combinar isso tudo num evento mundão que a gente fez aqui, com batalha de rima, com show ao vivo, com campeonato 3x3, 5x5, 1x1, batalha de break... Enfim, clínica de pintura para a molecada, exposição de arte também.

 


Queria falar um pouquinho da parte musical, porque, como você comentou, o basquete traz muito dessa cultura. A Payback tem seu selo musical, a PBK Music. Como está essa frente? Vocês já chegaram a lançar alguém para o mercado?

Tem um artista que é o nosso diamante, que sou até suspeito para falar dele, porque é meu irmãozão. O nome artístico dele é LX_Trocen, é ex-atleta de basquete do Fluminense, nascido na Cruzada, e parou de jogar para seguir a carreira na música.
[Link para video clipe do LX_Trocen]

 


Eu não sei se você está acompanhando, mas está acontecendo uma briga muito grande no basquete nacional, entre a CBB e a Liga Nacional de Basquete (LNB). O NBB tem uma chancela que a CBB provê, e essa chancela foi retirada da CBB. Vocês conseguem quantificar a importância do NBB para o basquete nacional?

Cara, obviamente que uma liga profissional é superimportante para o basquete, mas eu acho que mais importante do que a liga são os agentes que fazem o basquete acontecer como um todo. E por que eu estou falando isso? Porque hoje entendemos que a grande virada de chave é justamente o basquete como cultura, e não o basquete como modalidade. É isso que as marcas querem, é este o atrativo e é isso que a maior referência mundial faz, que é a NBA. Então, eu sou totalmente imparcial quanto ao que acontece com o NBB e com a CBB. Para mim, o meu trabalho vai continuar, eu vou continuar impulsionando a cultura do basquete. Óbvio que a alta performance é fundamental, porque não adianta você ter um trabalho todo de base. Uma criança vai começar a jogar basquete porque tem um Kyrie Irving, porque tem um Lebron James, porque tem um Kobe Bryant, porque tem um Michael Jordan. Então, precisamos desses caras, e no nosso país não é diferente, precisamos dos caras de outro nível. Mas a gente, só esses caras, só a Liga Nacional, não põem mesa.

Então, é preciso um olhar 360 para o nosso universo. E eu acredito que a gente está fazendo essa parte. Eu espero que essa situação, que é superdesagradável, da NBB com a CBB, se resolva, não sei como, espero que se resolva, mas por aqui a gente vai continuar fazendo o nosso trabalho, apoiando o basquete, impulsionando essa cultura, impulsionando esse movimento, essas pessoas que são apaixonadas, esse jogo apaixonante, que eu acho que - não tenho certeza - tem o poder de mudar muitas vidas, sabe? Não só das pessoas que jogam, mas das pessoas que estão envolvidas também com o movimento.

 

Como se faz para vir jogar nas partidas de segunda no Leblon?

Só chegar. Mas chega cedo, porque a pelada está bombando. Bota o nome na lista e acompanha nossas redes para estar sempre atualizado com tudo que tem rolado. O objetivo é esse, gerar uma comunidade e poder tirar daqui desses movimentos grandes atletas, grandes fisioterapeutas, grandes médicos de esporte, grandes técnicos, enfim, o movimento é para fomentar a cultura como um todo, a tribo do basquete, não só, porque existe essa mania de achar que só se precisa do grande atleta. Precisamos do grande repórter, do grande fisioterapeuta, enfim, é um universo, né? Então, eu acho que é um pouco sobre isso, é isso que a gente quer trazer, sabe? E eu fico muito feliz com a sua iniciativa de poder empoderar a gente também, qualquer tipo de voz, de canal que a gente puder ter para comunicar, para expandir o sistema, para poder difundir as nossas ideias, para a gente é supervaloroso e, pô, a gente está no começo, né? O basquete no Brasil já tem uns anos, mas ainda está engatinhando em vários aspectos. Então, precisamos de pessoas como você para fazer, para fazer isso acontecer. É verdade, se a gente for olhar na história da NBA, que para mim é a grande referência, não tem jeito, Euroliga é uma grande liga também.

 


Para fechar, uma frase para definir a Payback?

A Payback representa a cultura do basquete.

 


Conheça a Payback no site oficial da marca e nas redes sociais: Instagram: @paybackoficial

As “peladas” ocorrem todas segundas-feiras, a partir das 18:30 na Praça Claudio Coutinho no Leblon.